A cantora e compositora Dolores Duran (1930-1959), parceira de Edison Borges
O Natal existe
Aceitar a realidade da morte, como é difícil! Ainda que faça parte da vida e que a consciência de sua existência caracterize a condição humana, como a morte é denegada. A sua recusa parece tornar mais leve a existência de quem compreende a finitude da vida e tem de dialogar com ela. Aparência, apenas. São poucas as pessoas que conseguem caminhar contra o fluxo: aceitar a morte como parte da vida (ou a vida como parte da morte). São poucos os homens e mulheres conscientes de que viver é viver de morte e morrer é morrer de vida.

Infelizmente muitas escolas no Brasil estão hoje dissociadas da vida. Para quem pode pagar, elas se transformaram em fábricas de colocar gente nas faculdades. A educação é pautada pelo vestibular, não pela curiosidade e espanto diante da vida e da morte. Decoramos alguns conceitos para enfrentar o vestibular e logo nos esquecemos deles. Ainda bem! Por exemplo, apoptose: mecanismo natural de autodestruição das células – toda vida nasce para morrer. Nunca nos disseram nada a respeito da filosofia de Heráclito: "vivemos nós a morte das almas e vivem elas a nossa morte". Filosofia é perda de tempo.

O medo de perder tempo: patologia contemporânea do espírito. Como é louca a corrida pelas tecnologias da imortalidade e elixires do rejuvenescimento. Poucos se dão conta de que quantidade de anos nem sempre significa vida e do ridículo da negação do que se é.

A inexorabilidade da morte, e de sua suposta violência contra o projeto humano de eternidade, convida o ser humano a conhecê-la o quanto antes. Para os que não a procuram como amiga, em diálogo, ela se impõe como adversária, em monólogo.

Escrevo a respeito da minha primeira experiência com a morte (terá sido minha primeira morte?), pelo menos daquela se deu conscientemente, quando eu contava seis anos de idade e freqüentava o pré-primário da escola municipal em Itapira.

A morte roubou de mim a menina por quem eu era apaixonado, minha doce e meiga colega de classe (os adjetivos são emprestados da senhorita do Zé Geraldo). Não que ela tenha morrido. Aconteceu que numa determinada semana do segundo semestre daquele ano ela sumiu da escola. Um dia ou dois eu conseguia ficar sem a ver, sem estar perto dela, mas o prazo se estendeu demais, para além do suportável. Conversando em casa, descobri que a mãe dela havia morrido. A notícia chegou também à escola. Será possível a vida para além da mãe?, comecei a indagar.

Por ocasião do sumiço da minha doce e meiga colega, o Natal se aproximava e a professora ensaiava com a gente o jingle de 1975 do Banco Nacional (com filme dirigido pelo publicitário Lula Vieira e música composta por Edison Borges de Abrantes, o Passarinho):

"Quero ver / você não chorar / não olhar pra trás / nem se arrepender do que faz... / Quero ver o amor vencer / mas se a dor nascer / você resistir e sorrir... / Se você / pode ser assim / tão enorme assim / eu vou crer... / Que o Natal existe / que ninguém é triste / que no mundo há sempre amor... / Bom Natal um feliz Natal / muito amor e paz pra você... / pra você".

"Quero ver você não chorar, não olhar para trás...". Era impossível não pensar na minha doce e meiga colega. Ela deve ter chorado muito. Eu mesmo havia chorado com ela e por ela, apesar de nossa distância durante aqueles momentos difíceis. Como é bom o choro para instaurar a possibilidade da vida em diálogo com a morte.

Depois de semanas, ela voltou. Sem mãe, a vida continua. Aos seis anos de idade e no limite do possível, ela teve de re-significar sua existência. Voltou, mas não era a mesma pessoa. Ela havia mudado ou eu. Heráclito, de novo: "Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio".

Sua beleza e doçura eram as mesmas. A simpatia e a presença ainda a acompanhavam. O que mudou, afinal? Ao retornar, minha doce e meiga colega parecia muito mais madura do que eu.

Continuei a estudar com ela por alguns anos, nas mesmas salas de aula, e nunca mais ela foi para mim como nos primeiros meses do pré-primário. Depois dela tive outras paixões na infância. Uma delas mandava em mim, proibia-me de conversar com outras meninas. (E eu? Obedecia. Alma de escravo.) "Depois dela, as outras foram as outras – e só". Todas passaram, a primeira ficou. Eis o poder de uma música num ser humano. Nunca tive conta no Banco Nacional (ele nem existe mais); nunca fiz de Ayrton Senna, patrocínio mais ilustre daquele banco, uma espécie de herói brasileiro (morto prematuramente). Instituições e pessoas passam, o que permanece é a música. Para mim, "Quero ver você não chorar" será sempre a música da minha doce e meiga colega.

O Natal existe e está chegando de novo: é tempo de celebração da vida e da morte.



N.E. Edson Borges de Abrantes, o Passarinho, foi parceiro da cantora e compositora Dolores Duran (“Olha o tempo passando”, “Canção da tristeza”, “Tome continha de você”), do compositor Alfredo Borba (“Contando estrelas”, gravada por Walter Wanderley; “Amor eterno”, por Cascatinha e Inhana) e de Vadico (“Dói muito mais a dor”, registrada por Agostinho dos Santos). Originalmente, a música do jingle “O Natal existe” destinava-se ao grupo Os Titulares do Ritmo, mas o convite do publicitário Lula Vieira fez com que o autor Edison Borges desse outro destino à sua cria.


Passei boa parte da infância e adolescência com medo do inferno e à procura das coisas lá do alto, em busca do Outro. Estudei teologia e fui ser pastor. Tarefa pesada demais para mim. Passei, então, a buscar a compreensão das coisas aqui de baixo, do outro. Estudei Ciências Sociais e fui ser professor. Tarefa pesada que ainda consigo suportar. Fiquei convencido de que o enigma a ser decifrado sou eu e as coisas cá de dentro, do outro em mim. Fui fazer terapia. Mas ainda não me sinto muito bem.
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