O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900)
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Caminhar e cantar "Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: ''Navegar é preciso; viver não é preciso''". Fernando Pessoa é quem nos faz lembrar a poesia daqueles marujos do passado. Pelos "mares nunca de antes navegados" de Camões trouxeram a Europa para a América. Globalizar é preciso. Um novo mundo nasceu do estranhamento de um ser humano diante do outro: quadro típico dos encontros e desencontros da humanidade consigo mesma. Europeus e americanos nunca mais foram os mesmos.
Ao lema dos navegadores, Pessoa acrescenta sua própria interpretação: "Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar". Para quem não é poeta nem marinheiro, como é o meu caso, cabe uma nova metamorfose, com a devida licença dos lobos do mar e do poeta português: caminhar é preciso, viver não é preciso.
A condição de caminhante iguala os seres humanos. Caminhar coloca as pessoas diante da condição humana. "Caminhando e cantando e seguindo a canção / Somos todos iguais braços dados ou não" (Geraldo Vandré). Caminhar e cantar são imperativos à vida, pois "sem música, a vida seria um erro" (Nietzsche).
A cada passo dado ou a ser dado todos somos convidados a uma decisão, que pode levar ao erro. Viver é arriscado. Ninguém é obrigado a acertar sempre. A língua portuguesa permite um trocadilho: caminhar é errar. Errante é todo aquele que decide.
Decidir faz toda a diferença, pois há quem viva sem fazer escolhas a respeito de sua própria existência, sem conhecer suas pulsões e os múltiplos destinos possíveis a elas. Pode-se viver uma vida inteira sem que se perceba a possibilidade de outros caminhos, para além daqueles que se apresentam como naturais ou familiares. A vida são nossos caminhos.
Pode-se levar muito tempo até que se descubra que a vida é mais do que um caminho, aquele em que estamos; e mais do que dois caminhos, aquele em que estamos com nossos pares e o outro, por onde andam os outros. Quase sempre dividimos a vida entre nós e os outros. Os europeus e americanos de outrora podem ser os Bush e Bin Laden de agora. A humanidade continua a se encontrar e a se desencontrar pelos caminhos afora.
É difícil perceber que a caminhada nem sempre é para frente e que há curvas, desvios, bifurcações, encruzilhadas. O caminho nem sempre é plano. A vida exige força para escalar montanhas e coragem para descer precipícios. É difícil perceber que nós podemos ir e que ao voltar somos outros.
Que falta faz a poesia de Antonio Machado em nossa vida, tão prosaica: "Caminhante, são tuas pegadas / o caminho, e nada mais; / caminhante, não há caminho, / faz-se caminho ao andar. / Ao andar se faz o caminho, / e ao voltar o olhar para trás / vê-se a estrada que nunca / se há de tornar a pisar. / Caminhante, não há caminho, / apenas trilhas sobre o mar".
Não é bom ao ser humano trocar as experiências do caminho pela tranqüilidade de ter os pés em porto seguro. "O porto, não. (...) O porto, nada. Navegar é preciso, viver não é preciso" ("Os argonautas", Caetano Veloso). Sem risco, não há navegação ou caminhada, nem a emergência de mundos novos.
Caminhar é preciso! O que importa é o caminho, ou melhor, são os caminhos, sempre no plural, como a vida. "Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia" (João Guimarães Rosa).
:: Coluna publicada em 31 de março de 2007
Passei boa parte da infância e adolescência com medo do inferno e à procura das coisas lá do alto, em busca do Outro. Estudei teologia e fui ser pastor. Tarefa pesada demais para mim. Passei, então, a buscar a compreensão das coisas aqui de baixo, do outro. Estudei Ciências Sociais e fui ser professor. Tarefa pesada que ainda consigo suportar. Fiquei convencido de que o enigma a ser decifrado sou eu e as coisas cá de dentro, do outro em mim. Fui fazer terapia. Mas ainda não me sinto muito bem.
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