O aviador e escritor francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)
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Epitáfio Recentemente ganhei de um grande amigo um CD do João Nogueira com a música "O homem dos quarenta" (em parceria com Paulo César Pinheiro). Divertida e incômoda, a letra canta e conta a história de um "homem da faixa dos quarenta e tal", aquele que se recusa a aceitar a realidade e quer "parecer que tem menos de trinta". Um homem em busca do tempo perdido, das experiências perdidas, do que passou, mas não aconteceu, não tocou.
"A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara" (Jorge Larrosa, filósofo espanhol contemporâneo). Por quê? Por excesso de informação, opinião, trabalho e falta de tempo.
Falta de tempo: eis um problema da contemporaneidade que nos impede experiências e relacionamentos. "O tempo não pára", "preciso que o dia tenha 30 horas", "quanta correria", "como o ano passou depressa", "minha filha já vai fazer cinco anos?" (verdade, no meu caso). Modelos de frases que ouvimos ou falamos constantemente.
"Tempo é dinheiro": o Tio Patinhas tem ensinado isso a muitas crianças de vários países, há vários anos. Para os adultos há outros tipos de Tio Patinhas. Tudo para que o tempo seja aproveitado mais racionalmente. Otimizar o tempo é a expressão do momento.
Para que aproveitar melhor o tempo, fazer o tempo render mais, fazer o tempo durar mais? Correr mais para ter mais tempo para correr mais. Como se ninguém fosse responsável pela aceleração do tempo, apenas vítima. Como se o tempo não fosse acelerado por aviões, celulares, Internet, caixas eletrônicos etc.
Lembro-me aqui do livro O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry (que não é só para a leitura de candidatas a miss: é para todo mundo, crianças e adultos). O principezinho está em visita a vários planetas e se encontra com algumas pessoas, cada qual um estereótipo de seres humanos adultos. Num dos planetas visitados, conhece um vendedor de pílulas aperfeiçoadas que aplacavam a sede: tomando uma por semana a pessoa não precisava beber líquidos.
O Pequeno Príncipe pergunta: "Por que vendes isso?". O vendedor responde: "É uma grande economia de tempo... Os peritos calcularam. A gente economiza cinqüenta e três minutos por semana". O diálogo termina assim: "E que se faz, então, com os cinqüenta e três minutos?", pergunta o príncipe. "O que a gente quiser...", responde o vendedor. O príncipe conclui: "... se tivesse cinqüenta e três minutos para gastar, iria caminhando passo a passo, mãos no bolso, na direção de uma fonte...".
A vida não é feita somente de tirar vantagem em tudo. Deve haver também tempo e espaço para o prazer, o gozo, para cada um dos momentos vividos, cada experiência particular. Porque a certeza de que os momentos não voltam mais faz-nos entender e gozar a beleza de cada um deles.
Por que o tempo voa e nós corremos? Porque cada vez mais queremos que o nosso tempo seja produtivo, rentável, cada vez mais queremos antecipar os acontecimentos para ver se o lucro vem, se a realização dos planos acontece, se os sonhos se tornam realidade, se os projetos decolam ou não. O tempo voa porque o ser humano não consegue mais sorver a vida, aproveitar os momentos, realizar-se com a vida simplesmente – e não com o que ela pode oferecer.
Tempus fugit... Carpe diem... O tempo foge e nós devemos experimentar a vida da melhor maneira possível, no limite, sem esperar pelo epitáfio (segundo sugere o filósofo brasileiro contemporâneo Mario Sergio Cortella).
E por falar em epitáfio (antes de chegar à "faixa dos quarenta e tal" ou antes que seja tarde demais): "Devia ter amado mais, ter chorado mais / Ter visto o sol nascer / Devia ter arriscado mais e até errado mais / Ter feito o que eu queria fazer / Queria ter aceitado as pessoas como elas são / Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração (...) Devia ter complicado menos, trabalhado menos / Ter visto o sol se pôr / Devia ter me importado menos com problemas pequenos / Ter morrido de amor / Queria ter aceitado a vida como ela é / A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier" ("Epitáfio", Sérgio Brito, Titãs).
Passei boa parte da infância e adolescência com medo do inferno e à procura das coisas lá do alto, em busca do Outro. Estudei teologia e fui ser pastor. Tarefa pesada demais para mim. Passei, então, a buscar a compreensão das coisas aqui de baixo, do outro. Estudei Ciências Sociais e fui ser professor. Tarefa pesada que ainda consigo suportar. Fiquei convencido de que o enigma a ser decifrado sou eu e as coisas cá de dentro, do outro em mim. Fui fazer terapia. Mas ainda não me sinto muito bem.
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