Acima, o educador Paulo Freire. Abaixo, o disco Ouça o que eu digo: não ouça ninguém (BMG, 1988)
Somos quem podemos ser
Para Rebeca e Ana Carolina


No final do semestre passado participei em sala de aula de um seminário sobre o livro Pedagogia da autonomia, do mestre Paulo Freire (1921-1997) apresentado por duas de minhas alunas do curso de Pedagogia. Seminário bem organizado, bem articulado, bem exposto (um bom momento dentro da rotina de ser professor).

Ao preparar o trabalho as duas tiveram o insight (a palavra é delas) de tocar a música "Somos quem podemos ser", dos Engenheiros do Hawaii (composição de Humberto Gessinger), para encerrar a discussão. Foi mesmo o que aconteceu.

Dentro do contexto da exposição, elas destacaram a frase "somos quem podemos ser". Nem mais, nem menos. (Será possível ser mais do que podemos ser em cada fase de nossa história? Ser diferente, pelo menos? Não sei.)

E não saber faz toda a diferença, pois enquanto a música rolava, e eu sonhava acordado os sonhos que podia ter, o trecho que mais me tocou foi outro: "Quem duvida da vida tem culpa / Quem evita a dúvida também tem".

Se há uma palavra que pode caracterizar nossa vida e história é culpa. De quê? Não importa, o objeto não importa, importa a culpa. Culpa por existir, por ter nascido! Por duvidar ou por deixar de duvidar. Culpa por duvidar do que é tido como absolutamente certo. E por não duvidar daquilo que é tido como absolutamente equivocado.

"Quem duvida da vida tem culpa / Quem evita a dúvida também tem" – se não há possibilidade de não ter culpa, é melhor, acredito eu, ser culpado por duvidar do que por evitar a dúvida. Se "os ventos às vezes erram a direção", por que um sujeito não pode errar? Por que nós não podemos errar?

Será possível que somos somente o que podemos ser? Podemos querer algo mais para nós mesmos? Os "donos da situação" serão sempre os mesmos? Será possível uma nova realidade? Quais são "as chaves que abrem esta prisão"?

"O sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com seu gesto a relação dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão em permanente movimento na História" (Paulo Freire). O diálogo, tão necessário ao mundo contemporâneo, diálogo local e global, só é (ou será) possível se as dúvidas não forem evitadas. Porque onde há apenas certezas, de parte a parte, um não ouve o outro, um não se deixa tocar pelo outro. O diálogo pleno só se estabelece se a dúvida abre a brecha para que o outro seja ouvido, para que o eu (nós) possa ser tocado pelo outro (eles).

A dúvida é fonte de tolerância. Quem duvida é mais leve do que quem evita a dúvida. Os "sonhos que podemos ter" não são as certezas que possuímos. Para ter certeza não há necessidade de sonhar. Os sonhos nascem da esperança e a esperança está sempre em diálogo com a incerteza da dúvida. "Somos quem podemos ser" – apenas? Não, nossos sonhos são maiores do que nós mesmos. E é por eles e para eles que caminhamos.

As dúvidas não devem ser evitadas. Era o que ensinava Paulo Freire: valem mais as perguntas do que as respostas.



Texto publicado no dia 25 de setembro de 2007.


Passei boa parte da infância e adolescência com medo do inferno e à procura das coisas lá do alto, em busca do Outro. Estudei teologia e fui ser pastor. Tarefa pesada demais para mim. Passei, então, a buscar a compreensão das coisas aqui de baixo, do outro. Estudei Ciências Sociais e fui ser professor. Tarefa pesada que ainda consigo suportar. Fiquei convencido de que o enigma a ser decifrado sou eu e as coisas cá de dentro, do outro em mim. Fui fazer terapia. Mas ainda não me sinto muito bem.
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