Acima, a capa do disco As forças da natureza, de 1977. Abaixo, a cantora mineira Clara Nunes (1943-83)
As forças da natureza
Passei os últimos meses escrevendo mais textos acadêmicos (escondendo-me atrás do "índice de indeterminação do sujeito") do que crônicas (nas quais a nudez é inevitável). Fato que se deu não apenas por força do ofício de professor e pesquisador, também porque tenho me sentido vazio, seco.

Confiando nas forças físicas do eco, volto agora a meu espaço no Gafieiras com um texto que estava em gestação havia muito tempo. Quase passou do tempo dentro do útero. O parto precisou ser a fórceps, o filho saiu debilitado e foi para incubadora. O leitor e a leitora estão diante de um texto a ser criado ainda, com a vida toda pela frente. Não interessa. O que importa são os responsáveis pela gravidez: João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro.

Primeiramente explico o processo do parto. Assim como Voltaire trouxe à luz seu "Poema sobre o desastre de Lisboa” e o livro Cândido motivado pelo terremoto (seguido de tsunami) de 1755 em Lisboa, meu texto foi precipitado pelo sismo que ocorreu na cidade de São Paulo há algumas semanas (precisamente no dia 22 de abril), bem como pelas ondas gigantescas no mar do Rio de Janeiro (dois dias depois). Mas eu já vinha pensando no assunto havia alguns anos, sem exagero.

Agora posso tratar da concepção. Não vivemos no melhor dos mundos (mensagem que Voltaire se esforçou para transmitir em seu tempo) – acho que hoje não há otimista suficientemente forte para acreditar no contrário! Também não somos as melhores pessoas possíveis. Podemos até imaginar que não vivemos no melhor dos mundos possíveis porque não somos as melhores pessoas possíveis. Como decisão moderna e iluminista, a humanidade passou a sustentar que a natureza está aí para nos servir, ser explorada (e até destruída). Como se nós tivéssemos deixado de ser natureza. Passamos até a acreditar que a condição da existência limita-se ao ser humano. Só quem pensa existe?

Aqui não é espaço para a discussão de paradigmas epistemológicos. Quero apenas destacar que a pretensão do ser humano fica muito abalada, para não dizer ridicularizada, quando as forças da natureza dão sinal de vida (que escapam ao controle da humanidade, de sua ciência e tecnologia). Elas parecem querer demonstrar que a vida existia antes da humanidade e vai continuar depois dela.

Interessante que para fundamentar ou ilustrar o assunto eu poderia me valer aqui de texto científico ou da militância ecológica de alguma instituição ou pessoa. Mas não, quem me fez pensar a respeito do assunto foi Clara Nunes cantando "As forças da natureza" (composição de João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro).

Por favor, pasmem! O LP As forças da natureza é de 1977. A letra da faixa-título, transcrita a seguir na íntegra, parece ter ser sido escrita ontem:

Quando o sol / Se derramar em toda a sua essência / Desafiando o poder da ciência / Pra combater o mal / E o mar / Com suas águas bravias / Levar consigo o pó dos nossos dias / Vai ser um bom sinal / Os palácios vão desabar / Sob a força de um temporal / E os ventos vão sufocar / O barulho infernal / Os homens vão se rebelar / Dessa farsa descomunal / Vai voltar tudo ao seu lugar / Afinal / Vai resplandecer / Uma chuva de prata do céu vai descer, lá, lá, ia / O esplendor da mata vai renascer / E o ar de novo vai ser natural / Vai florir / Cada grande cidade o mato vai cobrir, ô, ô / Das ruínas um novo povo vai surgir / E vai cantar afinal / As pragas e as ervas daninhas / As armas e os homens de mal / Vão desaparecer nas cinzas de um carnaval

Achar que vivemos no melhor dos mundos possíveis é conformismo ou oportunismo, alienação ou má-fé. A vida humana no planeta terra está ameaçada. A vida no ou do planeta está ameaçada. A parte não-humana da natureza está dando sinais de que quer continuar a viver, mesmo sem a humanidade, para morrer de morte natural daqui a não sei quantos milhões de anos.

Do realismo para o otimismo: a emergência de um novo mundo e de um novo ser humano. É necessário fazer valer a profecia de João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro cantada pela sacerdotisa Clara Nunes: "os homens vão se rebelar". Uma dose de pessimismo: será que ainda dá tempo?


Passei boa parte da infância e adolescência com medo do inferno e à procura das coisas lá do alto, em busca do Outro. Estudei teologia e fui ser pastor. Tarefa pesada demais para mim. Passei, então, a buscar a compreensão das coisas aqui de baixo, do outro. Estudei Ciências Sociais e fui ser professor. Tarefa pesada que ainda consigo suportar. Fiquei convencido de que o enigma a ser decifrado sou eu e as coisas cá de dentro, do outro em mim. Fui fazer terapia. Mas ainda não me sinto muito bem.
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