Acima, cena hilária do crítico Tempos modernos. Abaixo, capa do LP Terceiro mundo e seu dono, Zé Geraldo, clicado
por Fernanda Serra Azul
Quant à moi...
Continuo nesta crônica a defender a idéia – implícita nos textos anteriores – de que a arte antecipa, com mais clareza por tocar a integralidade do ser humano, o que (pouco ou muito tempo) depois a ciência, por exemplo, anuncia apelando apenas ao racional. A pergunta da vez: o que é a modernidade?

Por influência de meu pai e de suas gargalhadas, conheci os filmes de Charles Chaplin ainda na infância. No colegial e na faculdade, vi e revi Tempos modernos (clássico!). Chaplin abre aquele filme com a seguinte proposição: "''Tempos modernos'' é uma história sobre a indústria, a iniciativa privada e a humanidade em busca de felicidade".

Cada ser humano e toda a humanidade em busca de felicidade: eis um bom retrato do sentido dos tempos modernos, da modernidade. Outra maneira de ver e dizer a mesma coisa: o ser humano e a humanidade em busca de autonomia. Contra toda heteronomia, o esquema da lei que vem de fora, a humanidade se colocou numa aventura de eliminação das potentes autoridades exteriores.

"Deus morreu!": grita o louco (personagem de Nietzsche no aforismo 125 de A gaia ciência), enquanto carrega sua lanterna na praça pública em plena luz do dia. Nietzsche não é o assassino em questão (a ele não cabe a acusação): a obra é coletiva. Foi a humanidade moderna que decidiu viver sem o divino: "Nós o matamos". O filósofo alemão apenas anuncia o caso. Anuncia mais (contundente, como sempre!): a humanidade tentou, mas não conseguiu viver sem a instituição metafísica.

"Para onde vamos nós?": tratamos logo de substituir deuses mortos por outros, muito vivos, dentre eles, a ciência, a tecnologia, a indústria, o mercado, a iniciativa privada. O resultado, ainda em construção, pode ser encontrado no sintoma revelado por uma expressão que, se um dia foi de alguém, agora, é de domínio de todos: "Deus morreu, Nietzsche também e eu não me sinto muito bem!".

Usamos aviões, computadores, celulares, satélites, remédios e muitas coisas outras (alguns países usam bombas contra outros países) – conquistas da sociedade moderna – e, ao mesmo tempo, não são poucas as mulheres e os homens que experimentam também um vazio que deixa a vida sem sentido. O que uma coisa tem a ver com a outra? Tais pessoas (todas?) anseiam por solidez (certezas!) dentro da modernidade líquida (expressão de Zygmunt Bauman). Para muitas, infelizmente, a única saída tem sido o fechamento egocêntrico, o fanatismo, a exclusão, a guerra...

Sintoma da modernidade cantado de forma tragicômica por Ana Carolina e Seu Jorge – numa versão da música francesa "Chatterton", de Serge Gainsbourg, ("Quant à moi, ça ne va plus très bien"):

Chatterton suicidou
Kurt Cobain suicidou
Getúlio Vargas suicidou
Nietzsche enlouqueceu
E eu não vou nada bem
Não vou nada bem

Sintoma cantado de forma somente trágica por Zé Geraldo na música "Cidadão" (de Lúcio Barbosa): a que ponto o mundo da indústria e da iniciativa privada é capaz de desprezar e discriminar um irmão humano! "Dá vontade de beber".

Na letra da música, o Deus de quem a humanidade quis se livrar aparece redivivo na pessoa de seu filho, que dá o recado ao sujeito moderno em busca de felicidade (apesar do cansaço, da exaustão):

Rapaz deixe de tolice
Não se deixe amedrontar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar


Transcorrido todo o tempo de Tempos modernos (o filme), o vagabundo diz à moça, muito cansada de buscar e de não encontrar a felicidade: "Erga-se, não desista. Vamos conseguir".

Transcorrido cerca de cinco séculos de tempos modernos (a história), já que a religião e suas promessas perderam sua força, devemos nos perguntar, na verdade, se há vida antes da morte, para quem e de que tipo.


Passei boa parte da infância e adolescência com medo do inferno e à procura das coisas lá do alto, em busca do Outro. Estudei teologia e fui ser pastor. Tarefa pesada demais para mim. Passei, então, a buscar a compreensão das coisas aqui de baixo, do outro. Estudei Ciências Sociais e fui ser professor. Tarefa pesada que ainda consigo suportar. Fiquei convencido de que o enigma a ser decifrado sou eu e as coisas cá de dentro, do outro em mim. Fui fazer terapia. Mas ainda não me sinto muito bem.
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