No alto, o poeta norte-americano Robert Frost (1874-1963) clicado por Fred Palumbo; abaixo, Elis Regina e Gonzaguinha
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E a vida Acabei de fazer aniversário: 36 anos. Mesma idade com que morreu prematuramente Elis Regina, a Pimentinha, em 1982. Ano em que fui muito feliz, dentre outras coisas, por causa da seleção brasileira de futebol de Telê Santana (Zico, Sócrates e cia.). Viva a beleza!
Poucos dias antes de minha data natalícia, recebi de alguém que me conhece bem uma mensagem eletrônica intitulada "A vida está passando". O recado: "Quantos dias sem sal e açúcar você tem vivido... Quantos mais serão? Quem você acha que vai temperar sua vida? Quem?". (Tempero da vida, um dos filmes mais belos que vi em toda a minha vida, por causa dele o meu guarda-chuva é vermelho.)
Frente à mensagem, inevitável não me perguntar: "O que é vida, afinal?". Inevitável não me lembrar de Emílio Santiago e sua "Verdade chinesa" (composição de Carlos Colla e Gilson), com as inquietantes perguntas: será que a vida é seguir "o caminho que o mundo traçou", "a cartilha que alguém ensinou" ou "a receita da vida normal"? Será que a vida é "fazer o que o mestre mandou" ou "comer o pão que o diabo amassou"?
Como espécie de sabedoria que critica a apropriação capitalista do tempo, a composição sentencia: "Deixa pra amanhã, tem muito tempo". Muito tempo, quanto? Eu já não tenho 36 anos de vida. Quantos ainda tenho pela frente? Não sei! Só sei que cansei da vida normal, de seguir a cartilha (até abro mão do Caminho suave), de fazer o que o mestre mandou, seja ele lá quem for. Eu quero é mais: ser mestre de mim mesmo, seguir o caminho que ainda não trilhei.
Escolher um caminho é rejeitar o outro: "(...) sabendo como um caminho a outro leva, duvido que lá possa voltar um dia. Isto direi com um suspiro na alma no tempo que durar a minha vida: Havia nesse bosque dois caminhos, e eu, eu fui pelo menos utilizado, e aí reside toda a diferença" (Robert Frost).
Incorporar a dúvida à vida é renunciar às cartilhas prontas e acabadas, renunciar aos mestres cheios de certezas. Aí reside a diferença. Ainda que o suspiro na alma seja o de uma vida inteira.
"E a vida, o que é, diga lá, meu irmão?" É aqui que chega outro sábio – o otimista (quem sabe realista!) Gonzaguinha – para dialogar com a verdade chinesa. "Eu sei, eu sei, que a vida devia ser bem melhor e será". Será?
Gonzaguinha, morto também prematuramente, em 1991, pergunta acerca da vida – "O que é, o que é?" – e responde: "Ela é a batida de um coração". Ainda que passageiro, o otimismo é contagiante: preciso contar que nesses 36 anos de experiência, poucas vezes eu tive uma sensação tão forte de Vida quanto no dia em que ouvi o coração acelerado da minha filha, dentro da barriga de sua mãe, amplificado pelos aparelhos de ultrassonografia tomando conta de toda a sala da clínica médica. Chorei feito criança ante a beleza do "sopro do criador"!
Quem vai temperar minha vida?, pergunta quem me conhece. Pergunta retórica. Sei a resposta oficial: eu mesmo. Como o assunto é tempero, resolvi ouvir a Pimentinha, em "Redescobrir", com o Gonzaguinha: "Redescobrir o sal que está na própria pele, macia / Redescobrir o doce no lamber das línguas, macias / Redescobrir o gosto e o sabor da festa, magia".
O tempero já está em mim: "Tudo principia na própria pessoa, beleza". Enquanto não consigo, fico com a "Verdade chinesa": "Senta, se acomoda, à vontade, tá em casa / Toma um copo, dá um tempo, que a tristeza vai passar". Quando?
Feliz aniversário!
Texto publicado no dia 13 de dezembro de 2008.
Passei boa parte da infância e adolescência com medo do inferno e à procura das coisas lá do alto, em busca do Outro. Estudei teologia e fui ser pastor. Tarefa pesada demais para mim. Passei, então, a buscar a compreensão das coisas aqui de baixo, do outro. Estudei Ciências Sociais e fui ser professor. Tarefa pesada que ainda consigo suportar. Fiquei convencido de que o enigma a ser decifrado sou eu e as coisas cá de dentro, do outro em mim. Fui fazer terapia. Mas ainda não me sinto muito bem.
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