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![]() Acima, cartaz do filme Loki, seguido da capa do disco A banda tropicalista de Duprat, da formação clássica d'Os Mutantes, da capa do álbum Loki?, e do quadro de Arnaldo Baptista pintado durante a gravação do documentário
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Amplificador valvulado Loki (2008), de Paulo Henrique Fontenelle, parece começar pelo fim, na balada de imagens e vozes entrecortadas. Mas não é fim em si, é ciclo. Nada mais apropriado para um filme que tem como protagonista Arnaldo Baptista, o cérebro silibrinado dos Mutantes. E, como em todo filme que fala de música brasileira, ou melhor, da música brasileira que redescobriu o Brasil, lá está o filósofo Tom Zé, agora com a missão de imaginar o peso da sabedoria mítica de Arnaldo.
Se para falar de Arnaldo Baptista é preciso falar de Mutantes, é isso que faz boa parte do filme, biografando o começo de tudo e tecendo a importância do grupo para a verticalização da música brasileira. É Rogério Duprat, o demiurgo da aura sonora tropicalista, que — sob uma câmera plongée concretista, como numa fotografia de Oiticica (o pai de Hélio), em cena de Maldito popular brasileiro (1990), curta de Patrícia Moran — não vacila em dizer que foi Arnaldo o responsável por quase tudo o que aconteceu no Brasil musical de 1967 em diante. O mesmo Duprat arranjador e regente de Tropicália ou panis et circensis (1968), disco que sedimentou o esboço harmônico do movimento, traçado ano antes no festival da Record, quando os Mutantes acompanharam Gilberto Gil em “Domingo no parque”, também com orquestração sua. Abro nota para o incompreendido (até pelo autor!) A banda tropicalista do Duprat (1968), antropofagismo chacrinha em plena linha dura, bastando-se sublinhar as trombetas sarcásticas de “Chega de saudade”. Situar o comportamento mutante, irreverente e absorvedor dos timbres universais, na contramão da ditadura é trecho do filme que faz refletir de fato sobre a desalienação do roque, claro que como eco do “all you need is love” beatle, iniciado em Rubber soul (1965), como reação à guerra do Vietnã. Por aqui, a seu modo, os Mutantes também desempenharam um papel. Além de breves depoimentos sobre o tema, o filme ilustra isso com imagens da polícia do regime descendo o sarrafo em populares, sonorizadas com “Não vá se perder por aí”, de Raphael e Tobé, faixa do segundo elepê, Mutantes (1969). Se a música não chega a ter, por exemplo, o apelo anárquico que tem “Dom Quixote”, de Arnaldo e Rita Lee, e do mesmo elepê, toca nas máximas do “cresça e apareça” e “devagar se vai ao longe” como lição ao ímpeto juvenil. Entre as referências visuais, estão ainda a campanha publicitária da Shell, com o trio em situações cômicas à la cinema mudo — mais antropofagismo, creio eu, já que o grupo ficou em primeiro plano — , e a participação deles em As amorosas (1968), de Walter Hugo Khouri, em que assinam três músicas da trilha e aparecem tocando no inferninho paulistano Ponto de Encontro, na famosa galeria Metrópole, com direito a close do esplendor de Rita. E, do mote Beatles, Loki levanta a lebre de que os Mutantes foram além. Devendra Banhart, fã assumido do grupo, e de Secos & Molhados, e de Novos Baianos, e de Caetano Veloso, é taxativo sobre isso. O que Sean Lennon, filho de John, acaba por indiciar quando a conversa é criatividade. Há ainda a pitoresca carta de Kurt Cobain a Arnaldo, declarando seu amor aos Mutantes, e despertando a curiosidade da molecada. Talvez seja mesmo a imaginação criativa dos Mutantes algo incomparável na história do roque, vide a transcendência sonora que brotava de Arnaldo, o que fez dele uma espécie de Sousândrade da música, muito a frente de seu tempo. O filme — sem forçar resposta, obviamente porque os próprios mutantes nunca a encontraram — tenta reconstituir o desfazimento do grupo. E, apesar de a emoção ser a tônica, o assunto traz reações diversas: em Liminha, a saudade; em Dinho Leme, a aparente indiferença; em Sérgio Dias, o psicologismo; em Arnaldo, a digressão. Rita não fala, não quis tomar parte no filme. Tárik de Souza, crítico musical, diz que, segundo ela, sua saída se deu por divergência estética, que teria deixado os Mutantes em razão da viagem progressiva sem volta. Bem ou mal, esse é o auge da lisergia. Em entrevista para a TV Cultura, Arnaldo mostra seu desbunde, intensificado pela desilusão provocada pelo rompimento de duas parcerias que se fundiam numa só, a amorosa e a artística. Um disco depois, O a e o z (1973), que ficou inédito até 1992, seria a sua vez de sair. Um prenúncio de que o fim da formação clássica dos Mutantes era inevitável foram os dois primeiros discos-solos, em tese, de Rita Lee: Build up (1970), com direção musical de Arnaldo, e Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida (1972), este um elepê escancarado dos Mutantes, apenas sem o nome na capa e sem um vocal principal aqui e outro ali de Arnaldo, como precisaria ser em “Beija-me amor”, dele e Élcio Decário. Com duas horas de duração, o filme divide praticamente ao meio a trajetória de Arnaldo: o mutante e o loki. E é a segunda parte, por assim dizer, a que com efeito se ancora no elepê que dá nome ao filme, só que com a sutil — mas significativa — supressão dum ponto de interrogação. Loki? (1974), a obra-prima de Arnaldo, é considerado um dos discos mais importantes da música brasileira de todos os tempos. Na emoção de letras e melodias, e de um piano vigoroso, um artista desacreditado pelo uso de drogas ressurge em ensaio catártico, desvelando sua vida, a transição do jovem inocente que queria mudar o mundo com sua banda de roque para o adulto diante do mundo. O clipe de “Será que eu vou virar bolor” mostra Arnaldo na carroceria de um caminhão de mudança alado tocando um piano azul com estrelas brancas, como que sendo abduzido para outra dimensão. Não gosto do pessoal da Nasa. Cadê meu disco voador? Loki? é um grito de sofrimento e loucura, é uma confissão ácida. E veio a Patrulha do Espaço, com uma batida de fôlego, mas relegada também. O segundo casamento e o primeiro e único filho. O Unziôtru, com Lulu Santos e Antônio Pedro, em quatro dias na Funarte. A precoce morte de Heliogábalo. O acidente quase fatal. O resto é a história do homem Arnaldo, a história de um renascimento, já livre do mito e acalentado pela fada Lucinha, na pacatez das Geraes. O homem de voz de criança, com a inocência terna das crianças, que descobriu na pintura uma forma outra de revelação, talvez a mais pura, que o fez em um quadro pintar a própria vida diante da câmera, um quadro-síntese, com mãos ao piano no lugar de cortinas, a descerrar a sua necessidade do palco. E, como num ciclo, o retorno dos Mutantes, com Zélia Ducan, em 2006, no Barbican Theatre, em Londres, parte de uma mostra sobre a tropicália, e na hecatombe (palavra de Tom Zé) do Ipiranga, em 2007, no aniversário de São Paulo. Loki nos faz ver que a arte, que o artista sempre estará em Arnaldo, que jamais se apagará: I’m gonna see the raise of the sunshine antes do outro comercial. E baseado num céu genuíno estrear no carnaval. RENATO CUNHA é cineasta pelo acaso. A literatura o levou. Ainda garoto, achava que seria escritor. Depois de picado pela mosca audiovisual, começou a emendar um filme no outro. Faz agora seu primeiro longa-metragem. E sempre que pode, e quando não pode também, escreve sobre cinema. Publicou três livros. |
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