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![]() Imagens da cantora Maria Bethânia captadas do curta Bethânia bem de perto, a propósito de um show, de 1966.
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Clave de si Em 1965, em início de carreira, os cineastas Eduardo Escorel e Julio Bressane tiveram o estalo de acompanhar os passos reveladores de Maria Bethânia, então com 18 anos, que chegava ao Rio de Janeiro para substituir Nara Leão no Opinião, espetáculo escrito por Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa, dirigido por Augusto Boal e coprotagonizado por Zé Keti e João do Vale. Era uma reação ao golpe militar de 1964, e Bethânia, praticamente desconhecida, muito se destacou pela incisiva interpretação de “Carcará”, do próprio João do Vale e José Cândido.
O registro daria no curta Bethânia bem de perto, a propósito de um show, lançado no ano seguinte, 1966. Reza a lenda (impressa no Pasquim) que, numa exibição do filme no Cine Paissandu — ponto de encontro da cinefilia carioca —, quando parte do público ensaiava uma vaia, descontente sabe-se lá com o quê, um espectador, indignado, deixou a sala gritando “Bethânia é um gênio! Bethânia é um gênio!”. Era Caetano Veloso, que, a pedido do pai, havia ido para o Rio acompanhar a irmã. Apesar de ser só uma promessa, ali se vê Bethânia segura, sabedora de nada dever às grandes cantoras brasileiras. Mas também uma Bethânia que chega a demonstrar certa arrogância, típica do desbunde juvenil, vide o escárnio desnecessário, provocado pelos cineastas e por uns destilados a mais, a Roberto Carlos. Nada grave, do contrário não teria sido ela a responsável, uns anos depois, por aproximar a Tropicália da Jovem Guarda. Sem falar no seu As canções que você fez pra mim (1993). Na verdade, o que mais importa no filme é a proximidade com que a narrativa traz Bethânia e seu círculo social carioca. Nele, Sylvinha Telles, Susana de Moraes, Rosinha de Valença, Jards Macalé (que numa das cenas aparece apresentando aos amigos “Uma canção”, sua e de Vinicius de Moraes, nunca gravada, creio). A expressão “bem de perto”, aliás, se é metáfora no título, significativamente se desmetaforiza no filme, com Bethânia quase sempre em primeiro plano. Restaurado pela Cinemateca Brasileira, Bethânia bem de perto tomou nova vida, saindo do esquecimento para compor um devedê junto com outro filme sobre ela, Pedrinha de Aruanda (2006), de Andrucha Waddington, que a visitou em Salvador, num show na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, e em sua cidade natal, Santo Amaro da Purificação, quando comemorava seu aniversário e quatro décadas de carreira. É muito feliz a reunião desses dois filmes, que se redimensionam ao serem assistidos em sequência. Vê-los assim é idear a formação de Maria Bethânia, da excitação à serenidade. Ambos, sensivelmente, fogem da mera cinebiografia, só que, enquanto Bethânia bem de perto se mostra uma espécie de crônica, Pedrinha de Aruanda se detém na poética, versa a maturidade da personagem, sua relação com a família, sobretudo com a mãe, dona Canô. É na igreja matriz, na missa em celebração de seu aniversário, no cântico “Maria Mater Gratiae”, ao qual empresta a voz em complemento ao coral; é no bate-papo com Caetano no carro, de Salvador a Santo Amaro; é na mesa de jantar da casa em que foi criada, memorial; é na roda de música digestiva, na varanda, que Bethânia dá corpo à integrante do clã, capaz de barrar o ícone da emepebê. O filme tem montagem fina, sabe compreender esses tempos de Bethânia, essa sua reflexão sobre a vida, sobre a clave de si. É aí que se encaixa o quase clipe de “Motriz”, de Caetano Veloso, que ela canta ao violão de Jaime Alem, na estação ferroviária de Santo Amaro. “Motriz” é como se fosse a aura do filme, um zéfiro a desvelar suavemente Bethânia, desvelamento que se apura quando ela aparece no circo da cidade, conduzindo-se à infância, ao sonho do trapézio, e pedindo licença aos deuses circenses para pisar no sacro picadeiro. Desconstrói-se a diferença entre picadeiro e palco, entre palco e altar, entre Santo Amaro e o mundo. É isso que se pode sentir, além das canções, com as poesias de Quintana e Pessoa que declama. Assim se vê Bethânia, de passarinho na gaiola que ela mesma segura no final de Bethânia bem de perto a pássaro canoro de Pedrinha de Aruanda, livre. RENATO CUNHA é cineasta pelo acaso. A literatura o levou. Ainda garoto, achava que seria escritor. Depois de picado pela mosca audiovisual, começou a emendar um filme no outro. Faz agora seu primeiro longa-metragem. E sempre que pode, e quando não pode também, escreve sobre cinema. Publicou três livros. |
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