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![]() Capa do álbum Psicoacústica! (1988), o quarteto com os óculos 3D que vinham encartados no LP, os atores Helena Ignez e Paulo Vilaça em cena no filme O bandido da luz vermelha (1968), seguido de seu cartaz
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Pegue essa arma! As intenções do Ira! para o terceiro disco (Psicoacústica) eram bem claras nas cabeças de cada um dos quatro: psicodelia, experimentação e modernidade. Era o momento de fazer o mais maluco registro do grupo. Ao mesmo tempo, também o mais bem acabado e produzido disco. O disco psicodélico. Se viviam virtualmente a onda sessentista em suas canções, aquela era a hora de fazer o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band deles, o Tommy deles.
Objetivamente, eles queriam fazer nesse novo disco tudo o que não puderam no anterior, o Vivendo e não aprendendo. Misturar instrumentos acústicos com guitarra, dar peso, abusar de efeitos sem lançar mão das melodias e harmonias bem construídas. A viagem começou em novembro de 1987 e se estendeu até janeiro de 1988, no já conhecido estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro. E se a ideia era apostar na maluquice, não poderiam ter escolhido melhor momento. No dia 14 de setembro de 1987, os tripulantes do navio Solano Star, foram “sutilmente” avisados que a Polícia Federal e a Marinha já sabiam da nada humilde carga de maconha que traziam nos seus porões. Desesperados, os tripulantes despejaram nas costas do Rio de Janeiro e São Paulo cerca de 20 mil latas com 1,5 quilos de maconha prensada com mel e glicose. A Marinha só conseguiu recuperar cerca de 2,5 mil dessas latas. A boa sobra ficou na mão da rapaziada e, de outubro de 1987 a fevereiro de 1988, viveu-se o período conhecido como o “Verão da lata”. Uma homenagem à ótima qualidade da maconha desses recipientes, que fizeram a cabeça geral. Mesmo vazio, o navio foi confiscado e os tripulantes presos. Combustível nas mãos, o Ira! seguia trabalhando e sem pressão no Nas Nuvens. Tinham tempo de sobra para pirar e experimentar novos sons, batidas e pulsações. Para completar de vez a sensação de liberdade, tinham conquistado toda a moral possível com a gravadora e receberam carta branca para gastarem tempo lapidando o novo álbum. Tanto que, apesar do rascunho de algumas canções, a maioria do disco nasceu em estúdio, muitos efeitos e arranjos nasceram em cima da hora, no auge da chapação. O entrosamento só não era total porque as influências se chocaram. Enquanto Nasi e André vinham cheio de ideias modernistas com a batida do rap, com a fusão com o funk, Edgard e Gaspa estavam imersos mais do que nunca na onda mod e nos anos 1960. O guitarrista, mais do que não gostar, torcia o nariz para aquela modernice toda. Só que no fundo, esse cruzamento era ingrediente fundamental para que o tal disco lisérgico se tornasse revolucionário. Um dos principais destaques do disco é uma canção chamada “Advogado do diabo”. É a primeira que o grupo grava que não tem a assinatura de Edgard Scandurra. A música é de Marcos Nasi Valadão e André Jung. Se os dois já tinham dado voz ao rap, agora, inconscientemente, inventaram a música brasileira moderna. A música era uma jóia. André e Nasi cantam em dupla, com uma mistura de funk com repente. Ao fundo, Edgard faz solos sensacionais e extremamente distorcidos, quase que desconexos. Escolhida para abrir o disco e cravar um ponto de interrogação na cabeça do ouvinte, “Rubro Zorro” nasceu das viagens de Nasi com o filme O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla. Áudios retirados da película pontuam a canção – também a primeira assinada pelos quatro integrante do Ira!. O baixo poderoso de Gaspa é o responsável pela introdução. Pesada, Edgard faz um genial trabalho de guitarra, que explode no refrão de forma espetacular. Clipe não-oficial montado a partir de cenas do filme O bandido da luz vermelha com a versão de estúdio de "Rubro Zorro". Compartilhado do canal do YouTube PsicoTube Edgard, como não poderia deixar de ser, também despeja uma safra poderosa de boas canções. O exemplo é “Manhãs de domingo”, cheia de mudanças de andamento, com guitarras enfurecidas e uma letra muito boa, ao velho estilo existencialista: “Nas manhãs de domingo / Parece que todos olham pra você / Atravessando as ruas sem olhar pro farol / Nas manhãs de domingo / Parece que a noite valeu a pena”. Romântica, linda, mod era “Mesmo distante”, uma balada maravilhosa, que fechava o disco. Encharcada de guitarradas, o instrumento fazia um balanço com a delicadeza do que estava sendo dito na letra e ao som da craviola ao fundo: “Se você não se lembra / Então feche os olhos e sinta / Onde quer que esteja / O tempo vai voltar / E as nuvens serão velhas paisagens / E eu estarei apertando a sua mão / Eu estarei ao seu lado”. No meio disso tudo, tinha uma marcha “Poder, sorriso, fama” e uma canção recuperada dos tempos de Edgard no Exército, o reggae “Receita para se fazer um herói”. Belíssima, por sinal. Com um bateria vigorosa de André e um arranjo sensacional de Edgard, o reggae ganha peso e ênfase. “Pegue essa arma” também é apoiada na poderosa linha de baixo de Gaspa. Sombria, fala sobre a tênue linha que separa o homem comum do criminoso. Conta do pouco que pode levar alguém a cometer uma loucura. Perfeita, combina todos os instrumentos de forma genial. Edgard, outra vez, explode num solo cortante, pesado, demolidor, jogando de lado todos os pudores punk e se entregando ao instrumento. O refrão, cantado em duas vozes, é de arrepiar. Principalmente a parte de Edgard, quase gritada: “Tudo muda / É preciso mudar / Não é fácil o perigo passar / Sua cegueira mais e mais me complica / Se sua roupa vale mais que a comida / Se sua pose vale mais que uma vida”. Trazia, em sua coda, outros elementos extraídos do filme O bandido da luz vermelha. E todos os choques de influência, egos, aspirações e favoritismo se colidiram em “Farto do rock’n’roll”, de Edgard e Gaspa. Ironicamente, sob um hard-rock pesadaço, Nasi canta: “Eu fico tentanto me satisfazer / Com outros sons, outras batidas, outras pulsações / O planeta é grande e eu vou descobrir / Muitas respostas às minhas perguntas agora / Sempre tem alguma coisa pra me atrapalhar / E com a testa franzida de tanto me preocupar / Então faço como os outros e vou assistir ao show / Eu faço como os outros e vou assistir ao show / Fim de semana sim / Fim de semana não / Às vezes tudo bem, às vezes sem razão / Já estou farto do rock’n’roll / Já estou farto do rock’n’roll”. E, enquanto praguejava, o rock comia solto, pesado, perigoso, na sua melhor forma. E quando a coisa ficava mais pesada, entravam os scratches de Nasi. Foi o primeiro disco do Brasil a usar sample (o aparelho que copia um som e o reproduz durante uma música) e a usar o toca-disco como mais um instrumento. Loucura total! ALEXANDRE PETILLO é jornalista. Na verdade, queria ser o Casagrande, mas acabou no jornalismo no lendário Notícias Populares. Criou a revista Zero, escreveu para a Folha, Estadão, Playboy, Época, Superinteressante e Placar. Editou o livro Noite passada um disco salvou minha vida, em que 70 músicos e jornalistas falam de seus discos favoritos. É diretor do núcleo de programas da Rede Vanguarda, afiliada Globo no Vale do Paraíba, em que também apresenta o Boteco Vanguarda, mesa-redonda sobre futebol, além de fazer reportagens para o Globo Esporte. Leia também
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