![]() |


![]() Renato Teixeira seguido das capas do LP Álbum de família (1971), do compacto simples de 1984, e do CD Renato Teixeira no Auditório Ibirapuera, de 2007, também lançado em DVD e tema deste texto
|
Renato Teixeira no Auditório Ibirapuera Gênio. Uns, aqueles que sempre passam pelo Gafieiras, talvez concordem. Outros, podem torcer o nariz para o adjetivo. Eu acho, dá licença? E digo mais: gênio da categoria dos incompreendidos. “Por que?”, você diz. Explico. Renato Teixeira merece estar no mesmo patamar de outros craques da música brasileira que definiram seus gêneros. Lado a lado de João Gilberto, Paulinho da Viola, Chico Buarque e quetais. Renato Teixeira foi fundamental para a música sertaneja, argh!, de raiz. Para essa música feita no interior de São Paulo, Brasil. Música caipira. A coisa toda é dele.
Renato Teixeira, ou “Dentinho”, quando era criança pequena lá em Ubatuba, já sabia o que queria da vida. A música estava presente o tempo todo na sua casa. Queria tocar. Meteu as caras e foi ver o que estava rolando em São Paulo. Participou de festivais, fez parceria com Gal Costa, se enfiou com a turma que mandava na música brasileira no começo dos anos 1970. Adorava samba. Pesquisou o gênero, conheceu gente. Deu de cara com Paulinho da Viola e, ao ouvi-lo, cara-a-cara, teve uma epifania: “Esse cara tá cantando o seu mundo, ele viveu tudo isso. Eu preciso cantar o meu mundo”. Voltou para o interior. Foi em busca do seu interior. Da sua verdade. Se descobriu, assim, caipira. A música caipira que ouvia em sua casa, no rádio, pela manhã. Que ouvia quando subia a serra. Que ouvia em Taubaté. Aquela música não tinha a complexidade harmônica que a MPB fazia na época, nem a cadência bonita do samba ou a poesia de um Chico. Era simples. Mas era de verdade. “Depois da curva da estrada, tem um pé de araçá /Sinto vir água nos olhos, toda vez que eu passo lá /Sinto o coração flechado, cercado de solidão / Penso que deve ser doce, a fruta do coração / Vou contar para o seu pai que você namora / Vou contar pra sua mãe, que você me ignora / Vou pintar a minha boca no vermelho da amora”, ele canta a bela “Amora”. Simples, dedilhada preguiçosamente ao violão. Bate direto no coração, sem escalas. Como deve ser. Como deve ser... simples. Como são simples as amizades que se vive de verdade. E amigos sempre foram caros a Renato Teixeira. Ele canta: “A amizade sincera é um santo remédio / É um abrigo seguro / É natural da amizade / O abraço, o aperto de mão, o sorriso / Por isso se for preciso / Conte comigo, amigo disponha / Lembre-se sempre que mesmo modesta / Minha casa será sempre sua”. Parece banal, óbvio. Simples demais. Mas me fala aí: quando foi a última vez que você conversou com alguns dos seus melhores amigos pessoalmente? Quando foi a última vez que você olhou na cara dele e disse “Disponha”? Triste, né? O amigo de longa data Pena Branca chega em “Quando o amor se vai”. Tanta gente já quebrou a cabeça para tentar cantar o fim, mas o fim é, tá, eu sou repetitivo: simples. “Quando o amor se vai / Outro logo vem / Depois contam histórias / Narrando seus feitos / Pela vida afora / Vi por esses caminhos / Que o amor e a intriga viajam colados / A paixão e o ciúme / Por serem contidos / Viajam calados / E a gente revira esse mundo / E no fundo, tá tudo acertado / O futuro acontece / E no mesmo momento / Se entrega ao passado”. E não é? Num solo cortante e lindo, vem “Encostada na varanda”, quase que sussurrada em seu grave. Linda! E você imagina ela... Ela. “Uma flor em seus cabelos / Teu sorriso leve acalma / E traduz o seu olhar / O seu jeito de ficar / Encostada na varanda / Esperando pela lua / Que na noite clara / Surge toda nua / Entre as estrelas / No ar...”. Folk, meu velho. É sério. Tem aquelas que você já ouviu até rachar e por isso tenha deixado passar belos versos, como os de “Recado”. Quer coisa mais doída do que “Meu namorado é um sujeito ocupado / Não manda notícias, nem dá um sinal / Eu ando meio com medo / Que um dia ainda ache a tristeza normal”. Ou a singeleza de quem, finalmente, sabe o que quer de “Tocando em frente”. O testemunho de quem já comeu muito pó na estrada, que sabe o valor do que é real, do que realmente vale a pena. “Ando devagar / Porque já tive pressa / E levo esse sorriso / Porque já chorei demais / Hoje me sinto mais forte / Mais feliz, quem sabe / Eu só levo a certeza / De que muito pouco sei / Ou nada sei / Conhecer as manhas / E as manhãs / O sabor das massas / E das maçãs / É preciso amor / Pra poder pulsar / É preciso paz pra poder seguir / É preciso chuva para florir.” Aqui num arranjo de deixar Woody Guthrie de boca aberta. “Romaria” vem com slide e um apoio vocal que a deixa como uma oração. O solo de gaita, logo após o refrão, te deixa aos pés de Nossa Senhora Aparecida. “Como eu não sei rezar, só queria mostrar / Meu olhar / Meu olhar...” E ainda faltou “Amanheceu, peguei a viola, botei na sacola e fui viajar...” Gênio! Renato Teixeira. Poderia justificar ainda mais a sua genialidade. Mas é só ouvir. Ouça. Escrever pode complicar. ALEXANDRE PETILLO é jornalista. Na verdade, queria ser o Casagrande, mas acabou no jornalismo no lendário Notícias Populares. Criou a revista Zero, escreveu para a Folha, Estadão, Playboy, Época, Superinteressante e Placar. Editou o livro Noite passada um disco salvou minha vida, em que 70 músicos e jornalistas falam de seus discos favoritos. É diretor do núcleo de programas da Rede Vanguarda, afiliada Globo no Vale do Paraíba, em que também apresenta o Boteco Vanguarda, mesa-redonda sobre futebol, além de fazer reportagens para o Globo Esporte. Leia também
|
|
© Copyright • Gafieiras • 2002 - 2009 • Todos os direitos reservados. |
site: rosselli • v:3.0 | ![]() |