De cima para baixo, Ronnie: bom moço
em 1966, de peito nu em 1969 e galã
viril em 1970
Ronnie Von psicodélico chega ao CD
[ 20.mai.07 ] Já faz um tempinho que a figura do cantor Ronnie Von vem sendo descoberta por uma nova geração, principalmente em sua fase psicodélica, que foi do final da década de 1960 até o começo dos anos 70. Recentemente, a jornalista Flávia Durante organizou um tributo, com 30 bandas independentes, a esta fase do “Príncipe da Jovem Guarda”. Por essas e outras, a gravadora Universal (que comprou a original Polydor) decidiu lançar pela primeira vez em CD três discos do início da carreira de Ronnie, sendo que dois dos cinco psicodélicos-hippies-tropicalistas (faltaram A misteriosa luta do Reino de Parassempre contra o Império de Nuncamais, de 1969, e os Ronnie Von, de 1972 e 1973).

O primeiro disco dessa leva, Ronnie Von, é a estréia fonográfica (e totalmente jovem guardista) do cantor em 1966. Estourado pelo sucesso de “Meu bem” (versão de Fred Jorge para “Girl” dos Beatles), Ronnie gravou rapidamente uma série de versões para português de músicas de Lennon & McCartney (“In my life”, “Norwegian wood”, “For no one”, “It’s only love”, “You’ve got to hide your love away” e “Here, there and everywhere”) e até dos também jovens Rolling Stones (“As tears goes by”). Os próximos dois discos de Ronnie seguiram mais ou menos a mesma trilha (versões nacionais de rocks ingleses e americanos), mas o número de composições originais foi aumentando (com direito a mais um sucesso, “A praça”, de Carlos Imperial). Até que chegou 1969, o ano que não terminou e no qual o príncipe Ronnie tomou um ácido.

Ronnie afirma no encarte de Ronnie Von (1969), seu quarto trabalho solo, que “começo o disco falando de mim, porque achava que tudo que fiz até então não tinha nenhuma qualidade e, em função desse desabafo, a canção ‘Meu novo cantar’ abre o disco. Queria sepultar o que tinha feito anteriormente”. Sob a batuta do maestro Damiano Cozzella (mestre de Rogério Duprat), o cantor mergulha em barulhos, loucuras urbanas e experimentações de toda a sorte em composições de Arnaldo Saccomani, tais como as emblemáticas “Anarquia”, “Mil Novecentos e Além” e “Espelhos quebrados”, e Luis Vagner, como a clássica “Silvia: 20 horas, domingo” (parceria com Tom Gomes). O disco foi um baita fracasso comercial.

O terceiro disco desta leva é A máquina voadora (1970), o sexto solo. No disco anterior (No reino...) haviam aparecido as primeiras composições de Ronnie, invariavelmente em parceria com San Martin, mas neste elas são maioria. “Viva o chopp escuro”, “Tema de Alessandra”, “Águas de sempre”, “Seu olhar no meu”, “Verão no chama” e “A máquina voadora” são algumas das músicas de Ronnie, mas estão presentes também Arnaldo Saccomani (“Baby de tal”), um desconhecido Renato Teixeira (“Enseada”), Tom Gomes (“Continente e civilizações”, parceria com Jean Pierre) e Paulinho Tapajós (“Cidade”, parceria com Eustáquio Sena). Desta vez a gravadora não quis arriscar e, mesmo que as músicas seguissem modernas e estranhas para o público que consumia o artista nos tempos da Jovem Guarda, chamaram dois arranjadores mais “tradicionais”, Chiquinho de Moraes e Djalma Mellin. Ronnie Von ainda seguiria enlouquecendo tropicalisticamente por alguns poucos anos até entrar de cabeça em um repertório romântico na segunda metade da década de 1970. O sonho acabou, mas aconteceu, e Ronnie está aí vivão.
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