Seu Jorge se espalha pela América
Seu Jorge, humor e muito mais balanço
[ 17.out.07 ] O enigma Seu Jorge está volta. Carioca que mora em São Paulo há anos e feliz, ex-morador de rua e recentemente signatário do movimento Cansei, parceiro de Ana Carolina e tradutor debochado de clássicos de David Bowie, ator e músico, Seu Jorge está rodando o Brasil, com ônibus e tudo, na turnê de lançamento de seu terceiro trabalho solo, América Brasil, o disco (Javali Valente Records/EMI, 2007). Muito mais voltado ao balanço do samba rock, já que em seus discos anteriores predominavam o samba-funk-soul (Samba esporte fino, 2001) ou a bossa (Cru, 2005), o novo CD chega com onze músicas inéditas e mostra um cantor de fraseado cada vez mais inteligente e versátil.

No decorrer do disco, Seu Jorge alterna afetos entre sua raiz trabalhadora e a atual condição burguesa, mas tentando com afinco (pelo menos em si) juntar essas duas pontas sociais que ainda se estranham. Tudo começa com “América do Norte” (Seu Jorge, Gabriel Moura e Pretinho da Serrinha), no qual o cantor faz a sua própria “Chiclete com banana” (Gordurinha e Almira Castilho) ao jurar que fará a América do Norte cair em seu sambalanço ao mesmo tempo que se encanta com os olhos azuis das americanas (com direito a cavaquinho e cuíca misturados com violino). “Trabalhador” (Seu Jorge) narra dificuldades cotidianas em versos como “Trabalhador / Trabalhador brasileiro / Frentista, frentista, polícia, bombeiro / Tem gari por aí que é formado engenheiro / (...) Trabalhador brasileiro / (...) Trabalha igual burro e não ganha dinheiro”.

“Burguesinha” (Seu Jorge, Gabriel Moura e Pretinho da Serrinha) é uma ode a uma fatia do novo público que o cantor ganhou após os shows com Ana Carolina. Tudo certo e a bela burguesinha faz o que quer, sem maiores problemas. A romântica “Cuidar de mim” (Seu Jorge, Gabriel Moura e Rogê), uma das poucas do disco, foi gravada em 2006 por Paula Lima e agora ganha uma versão sentida do próprio autor. Um dos pontos altos do disco, a paulistana “Mina do condomínio” (Seu Jorge, Gabriel Moura, Pretinho da Serrinha e Pierre Aderne) é amor não-correspondido sob a forma de um samba rock contagiante. Nova pausa para o romance na bossa “Mariana” (Seu Jorge), uma declaração de amor de Seu Jorge à sua mulher Mariana Jorge (mãe de suas duas filhas). E aí o pancadão ressurge com a sensacional “Só no chat” (Seu Jorge, Gabriel Moura e Pretinho da Serrinha), balanço com guitarras nervosas e versos impagáveis como “Ela vem com essa / E eu nem a conheço pessoalmente / Só no chat / Só na net / Só na mente”.

No melhor estilo das crônicas urbanas de Bezerra da Silva, Seu Jorge acelera e adota novamente o eu-trabalhador em “Samba rock” (Gabriel Moura e Jovi Joviniano), no qual reclama sobre o salário que o patrão não quer liberar (e dá-lhe bom humor, como em “Agora, lá em casa, como é que vai ser / Botei o meu moleque pra fazer judô / O japonês disse que lá não tem filosofia zen se não tiver din-din”). O disco vai chegando ao fim com uma nova pausa para o romantismo em “Seu olhar” (Seu Jorge), motivações financeiras em “Eterna busca” (Seu Jorge e Gabriel Moura, música feita para a marca de cachaça Sagatiba e que poderia muito bem não ter entrado no disco, apesar da deliciosa levada à la Jorge Ben) e mais um olhar sobre a classe trabalhadora no partido-alto “Voz da massa” (Gabriel Moura e João Carlos Silva Filho). Esta última ainda traz como bônus uma versão acústica da tal “Eterna busca”.

Ao lado de Seu Jorge, no disco e nos shows, está o Conjuntão Pesadão, formado pelos músicos Pretinho da Serrinha (cavaquinho, banjo e percussão), Sidão Santos (violão 7 cordas e baixo elétrico), Jr. Gaiatto (gaita e violino), Adriano Trindade (bateria), Nene Brown e Fábio Miudinho (percussões). Participações especiais de Max de Castro, Philippe Baden Powell, João Vianna e Gabriel Moura (filho de Paulo Moura e amigo de Seu Jorge do tempo do grupo Farofa Carioca).

p.s.: Toda a turnê de lançamento do disco é baseada nesta questão do trabalhador. Além dos músicos se vestirem com uniformes de trabalhadores, Seu Jorge está comandando um documentário sobre o trabalhador brasileiro. A cada parada do ônibus da turnê, o músico e um câmera descem para conversar com pessoas sobre o assunto. Quem viver, verá.
Pesquisa por data
© Copyright • Gafieiras • 2002 - 2009 • Todos os direitos reservados.
site: rosselli • v:3.0