O cara no palco
Caetano Veloso é mais Caetano Veloso no palco
[ 30.out.07 ] Só tem uma coisa que Caetano Veloso gosta tanto quanto falar: o palco. É o lugar onde se encontra com seu público e onde pode se soltar, dançar, gritar e contar histórias com a seleção de repertório. As turnês de lançamento de seus discos sempre resultaram em ótimos registros ao vivo e não foi diferente com (Universal, 2006). A sonoridade crua e direta do disco, construída toda em cima de seu encontro com os jovens Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo e teclados) e Marcello Calado (bateria), ganhou na turnê a companhia de outras músicas de diferentes fases do compositor baiano e o resultado é o CD e DVD Multishow Ao Vivo: Caetano Veloso – Cê (Universal, 2007).

De vieram as músicas como “Outro”, “Odeio”, “Homem”, “Deusa urbana”, “Musa híbrida”, “Um sonho”, “Não me arrependo” e “Rocks”, além de uma inédita que não foi terminada a tempo de entrar no disco (“Amor mais que discreto”, canção de amor homossexual que entrou em diálogo com “Ilusão à toa” de Johnny Alf). De outros tempos vieram “Desde que o samba é samba” (Tropicália 2 de 1993), “O homem velho” (Velô de 1984), “London London” (Caetano Veloso de 1971, mas lançada originalmente por Gal Costa um ano antes), “Fora da ordem” (Circuladô de 1991), “Sampa” (Muito – Dentro da estrela azulada de 1978), “Um tom” (Livro de 1997), “Como dois e dois” (gravada originalmente por Roberto Carlos em 1971 e que agora recebeu o primeiro registro de seu autor), “Nine out of tem” e “You don’t know me” (ambas de Transa, de 1972, o disco-referência de ).

Exclusivamente no DVD, as interpretações para “Descobri que sou um anjo” (Jorge Ben), “Chão da praça” (Moraes Moreira) e “A voz do violão” (Francisco Alves e Horácio Campos) e mais duas músicas do disco novo (“Minhas lágrimas” e “O herói”). Tudo feito com urgência e pegada, características que andavam em falta em alguns dos últimos trabalhos de Caetano. No extras, um excelente e revelador documentário com os bastidores do show. Confira abaixo trechos de uma entrevista que Caetano concedeu a este repórter em matéria feita para a edição de outubro da revista Monet:

A reação do público nos shows, tanto no Brasil quanto fora, te chamou atenção de alguma coisa nova sobre o disco?
Olha, quando a gente está montando o show imagina a reação do público. A ordem das canções, os arranjos. Mas isso sempre muda. Tem coisas que são muito fortes em um lugar, mas em outros não. Durante a turnê surgiram revelações surpreendentes. No Brasil inteiro, quase inteiro porque não fiz Curitiba e Florianópolis entre as capitais, o que mais me impressionava é que a música que mais unia as pessoas era “Como dois e dois”. Acontecia aquele aplauso compacto. Outra coisa é que a música “Odeio”, uma das novas do , foi se tornando um sucesso instantâneo. Fora do Brasil isso não acontecia no caso do “Como dois e dois”, mas “Odeio” também foi um sucesso e por causa do show. É que lá fora, depois de cantar a música, dizia que adorava quando as pessoas no Brasil cantavam bem alto “Odeio você!” [risos]. Aí todo mundo ria e na hora do bis faziam o mesmo. Isso aconteceu em toda a América Latina, tanto nos países que me conhecem como Argentina e México como nos outros onde sequer ouviram “Sampa”, como a Costa Rica e a República Dominicana.

Você tem registros ao vivo em sua discografia desde a década de 1970. Existe alguma razão especial para esse interesse? Você gosta de discos ao vivo?
Gosto muito. O som do disco ao vivo não é tão bom quanto o de estúdio, mas gosto mais de cantar ao vivo que no estúdio. Eu rendo mais. Sabe o que acontece? O estúdio parece que rouba o ar do pulmão da gente, falta respiração. Comigo pelo menos a extensão fica limitada. Já no palco consigo, com o pé nas costas, uma nota que no estúdio foi difícil de alcançar. A respiração dá pra tudo e no estúdio não dá pra nada. Acho que o estúdio é um lugar quieto, parado, onde você vai pra gravar. É frio, entendeu? E um espaço pequeno. Não consigo fingir que solto a minha voz. Por isso que gosto das gravações ao vivo. Gosto de fazer os shows e os discos de shows. E tem outra coisa, os meus discos de shows relativos a discos são muito diferentes, principalmente no repertório. São novas obras. Por exemplo, o disco Prenda minha não tem nenhuma música do disco Livro de onde veio o show. E existem muitos outros exemplos. No caso deste aqui tem algumas coisas que não estão no disco . Tem uma música inédita e umas quatro músicas antigas, mas também tem muito do disco novo. Agora, o que ficou interessante pra mim é que os arranjos das músicas do disco tocadas ao vivo tem um calor e uma abordagem diferentes.

Você sentiu uma repercussão diferente do Cê em relação aos seus discos anteriores?
Foi um pouco diferente porque o disco é um pouco diferente. Houve mudanças principalmente na recepção da crítica. Foi um pouquinho surpreendente pra mim, mas sabia que mudanças haviam de haver [risos]. Achei que houve mais simpatia do que rejeição e hostilidade, e acredito que isso tenha acontecido pelas próprias qualidades do disco. E pelo fato dos músicos serem muito bons, das músicas serem boas e de que a gente trabalhou de uma maneira claro, conseguido coisas que, mais ou menos, a crítica geralmente pede ou almeja. Achei que poderia haver uma reação pouco mais hostil das publicações especializadas em rock, embora fosse infundada historicamente. Houve pouco disso. As pessoas demonstraram um pouco mais de maturidade, equilíbrio, e com um senso de perspectiva histórica.
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