Isolda em disco, livro e em pessoa
Isolda estréia como cantora e dona de selo
[ 29.out.07 ] Até hoje, e muito provavelmente para sempre, bastam alguns acordes e as palavras “Você foi...” para que milhares e milhares de brasileiros sintam arrepios, chorem, relembrem histórias pessoais e cantem “Outra vez” a plenos pulmões. Um dos maiores sucessos da carreira de Roberto Carlos, só perdendo para “Detalhes” como uma das mais lembradas, a música foi registrada em seu disco de 1977 e é de autoria da paulistana Isolda Bourdot, ou apenas Isolda. Aos 50 anos e com mais de 300 músicas gravadas por artistas como Maria Bethânia, Alcione, Simone, Wando, Joanna, Gal Costa, Pepino di Capri, Manolo Otero, Richard Clayderman e, claro, Roberto Carlos, a compositora arregaçou as mangas, montou o selo Toca Disc e a partir dele lançou seu primeiro disco como cantora, Tudo exatamente assim (Toca Disc, 2007).

Romântica de letra e música, Isolda começou a compor em parceria com o irmão mais velho, o cantor Milton Carlos. Ao seu lado participou de festivais de música pelo país e em sua voz foram lançadas canções como “Desta vez te perdi” e “Um presente pra ela”. Em 1976, logo após os irmãos emplacarem “Um jeito estúpido de te amar” em disco de Roberto Carlos (o Rei gravou também, neste mesmo período, “Amigos, amigos”, “Pelo avesso” e “Jogo de damas”), glória máxima para qualquer compositor popular, Milton Carlos perdeu sua vida em um acidente de carro. Tinha apenas 21 anos. Isolda seguiu em frente e criou novas canções para Roberto (“Outra vez”, “Tente esquecer” e “Como é possível”), Ronnie Von (“Seu lugar”, “Por todas e coisas” e “Cara e coragem”) e Nelson Gonçalves (“A volta”), entre outros. Assinou parcerias com artistas como Armando Manzanero e Eduardo Dusek, mas compôs em grande parte sozinha nos anos que se seguiram.

Seu disco de estréia traz canções inéditas, exceção à primeira gravação de “Outra vez” em sua própria voz, em parcerias com Eduardo Dusek (“Música e letra”), Fhernanda (“De minha autoria”) e, do fundo do baú, o irmão Milton Carlos (“Voz ativa”), tudo sobre a direção musical e arranjos do pianista Beto Bertrami. Isolda também assina o livro Você também faz músicas? (Toca Disc, 2007), um manual que disseca o processo de composição, desde a criação até a questão dos direitos autorais. Confira abaixo uma entrevista exclusiva com Isolda feita por e-mail:

Gafieiras - O que te motivou a, finalmente, lançar o primeiro disco solo?
Isolda -
A idéia era montar um selo e resolvi me contratar como primeira artista [ risos ]. Na verdade, nunca me julguei uma cantora, sou uma compositora que no momento resolveu lançar seu próprio trabalho. É um disco autoral e essa experiência, de gravar minhas próprias músicas à minha maneira, foi maravilhosa. Pude gravar sem pressa, com os arranjos que gosto, músicos que admiro, tudo como eu queria. É por isso que o CD se chama Tudo exatamente assim [ risos ].

Gafieiras - Qual a sensação de ouvir suas músicas na própria voz após tantos anos sendo interpretada por outros (e outras)?
Isolda -
Achei interessante. O compositor sempre tem uma versão à parte, pessoal, de sua canção. Então, é quase como se fosse uma outra canção, diferente das gravações feitas por outros intérpretes. Claro que cada intérprete sente a canção de uma maneira, mas o compositor mostra sua origem, a razão de como ela foi feita. Eu gostei dessa obrigatória sinceridade.

Gafieiras - Como foi gravar “Outra vez” em sua própria voz?
Isolda -
Foi voltar ao tempo e “lembrar de tudo... outra vez...” [ risos ]

Gafieiras - Das interpretações de suas músicas quais você mais gosta? Independente do sucesso.
Isolda -
São muitas, difícil eleger uma. Gosto muito das interpretações do “Rei”, mas sou suspeita, todo mundo sabe como gosto dele. Ninguém interpretaria melhor que Simone a canção “Sou eu” [ gravada em 1993 no disco de mesmo nome ]; gosto muito de Joanna; Alcione foi única para a interpretação de “Pior é que eu gosto” [ gravada em 1988 no disco Ouro e cobre ]. Outro dia assisti um show do meu parceiro Eduardo Dusek, no qual ele cantou “Outra Vez” e fiquei surpresa. Ele dá uma entonação completamente diferente e fantástica! Enfim, como você vê todos têm uma qualidade peculiar e fica impossível escolher a melhor interpretação.

Gafieiras - Como surgiu a idéia do livro Você também faz músicas?? Qual foi o objetivo principal?
Isolda -
A idéia do livro surgiu quando eu colaborava para o site Cifra Club, na sessão Compositores, e recebia diversos e-mails com questões sobre direito autoral, composição, etc. Percebi que não havia qualquer tipo de ajuda para a turma que está começando, aliás nunca houve, e achei que seria uma boa idéia repassar para os novos autores tudo o que eu havia aprendido, vivido, constatado. Seria uma forma de ajudar e vejo que de certa forma tenho conseguido, pelas vendas e e-mails que recebo. Acho que consegui em parte elucidar um pouco essas questões.

Gafieiras - Como estão seus projetos pessoais de agora em diante?
Isolda -
Eu montei um selo, o Toca Disc, e através dele pretendo lançar produtos ligados não só a area musical, mas também a outras formas de arte que tenham o perfil desse selo que é, acima de tudo, qualidade. Além do meu CD e do meu livro estamos lançando agora o Spiral Galaxy do instrumentista e compositor Mauro Juliany, que é um disco de world music realmente muito bom. Lançaremos para o natal a Agenda do músico 2008, que é uma agenda voltada para o músico, com dicas profissionais, informações do mercado, contatos de selos e gravadoras, etc. Um outro lançamento é o livro infantil O amigo imaginário, uma visão kardecista infantil. Também para o Natal, o livro Dicas para um empresário de sucesso da Lilian Gonçalves e para 2008 um box com 3 discos de Milton Carlos que correspondem aos seus 3 LPs. Aliás, esse box só não foi lançado ainda por que não consegui autorização dos fonogramas que estão hoje em poder da Sony. Não entendo a razão deles bloquearem essa homenagem que quero fazer para o meu irmão, uma vez que eles mesmos não se interessam em relançar. Mas para tudo nessa vida tem um jeito, não é? Para o ano que vem a Toca Disc planeja também montar a peça de teatro infantil Traça letra, traça tudo que é um roteiro adaptado de um livro infantil de Luciana Savaget, de muito sucesso no Rio de Janeiro. Temos outras surpresas guardadas na manga, mas isso só mesmo pra meados de 2008.
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