Acima, Morris Picciotto, seguido de seu primeiro CD e de sua banda, Os Vivos
Dr. Morris lança 1º CD-solo
[ 10.ago.2009 ] O nome multi-étnico denuncia a pluralidade do som feito pelo cantor, violonista, compositor e produtor musical Morris Picciotto no disco 5 (Barracão Cultural, 2009), estreia de sua carreira-solo na formação intitulada Dr. Morris e os Vivos. As ascendências árabe, judia e italiana certamente contribuíram para que ele chegasse à sonoridade que define como “Tropicalismo paulista de imigrante”, com arranjos que, além de diversificar o trânsito entre sopros, cordas e levadas de percussão, passeia com naturalidade por baladas, samba, ska e ritmos que dinamizam a experiência de escutar o disco.

Ex-integrante da Urbanda, tida como uma “experiência de compositores” baseada nas obras dos medalhões da MPB, como Chico Buarque, Guinga e João Bosco, Morris trocou a calmaria sonora de seu ex-grupo para se dedicar à realização de um projeto mais pessoal e ousado. “O Felipe Julian (Axial) me apresentou ao Yvo Ursini (guitarrista e produtor musical). Fizemos vários trabalhos e acabamos nos tornando amigos. Eu sempre mostrava para ele minhas novas canções e falava da minha vontade de fazer uma carreira-solo com a minha própria banda”, conta Morris em entrevista ao Gafieiras. Decisão tomada, e ao lado de Yvo, recrutou Camila Lordy (teclados e sanfona), Henrique Alves (baixo) e Pedro Ito (bateria) para compor Os Vivos.

As 14 faixas do álbum, boa parte em parceria com a atriz, poeta e esposa de Morris, Eloisa Elena, alternam acordes dissonantes com melodiosos, e apresentam harmonias não-convencionais, sem, entretanto, soar restrito ao entendimento de guetos intelectuais. Em algumas canções o clima diversificado dá a impressão de escutar duas ou três músicas dentro de uma só. As baladas do disco ganham arranjos cheios, mas que não retiram a sensibilidade delas, como em “O primeiro dia do meu verão” e “Sorriso da Ana”, que inspirou o arranjo para a regravação da beatle “Norwegian Wood”, única canção não inédita no CD. Prezando pela variedade, “Carrossel de camelo” vai de Istambul a Joanesburgo com as escalas árabes; “Termômetro do meu suingue” mostra o poder de fogo do grupo quando o assunto é samba; e o ska “Uma tarde no Shopping Iguatemi” escancara o espírito da diversidade paulistana em melodia e versos. Durante algumas passagens, o som de Dr. Morris e os Vivos remete de forma implícita à música de bandas vanguardistas como Karnak, Premê e Grupo Rumo, o que, de acordo com Morris, não chegou a ser uma intenção na hora de realizá-lo. “Não sofri influência, mas adoro o Karnak, apesar de ter ouvido pouco, e o (disco do) Rumo para crianças (na verdade, Quero passear, de 1988) — minha filha Ana, de cinco anos, é fanática — que tem uma das melhores canções infantis que conheço: ‘Dr. Augusto Ruschie e os sapos venenosos’, do Paulo Tatit”, comenta.

Na entrevista confessa a vontade de que suas músicas se tornem trilha sonora de novelas, de mostrar sua música para públicos maiores, equilibrando-se na linha tênue entre ter personalidade e soar radiofônico. “A medida é fazer a música que vem do seu desejo, da sua necessidade, e essas duas palavras podem e devem ser reconhecidas sem preconceito. Vejo coisas legais nas novelas: Lenine, Zeca Baleiro, Céu. Estar na TV, como eles estão, vai ajudar a banda. Esse conforto pode ser bom. O que importa é a música que (esses artistas) fazem. Eu gostaria de tocar em novelas da mesma maneira que eu quero ter inspiração para continuar compondo e cantando”, diz.

A partir do dia 2 de setembro, durante todas as quartas, Dr. Morris e os Vivos lançam o CD com shows no Teatro TUSP (rua Maria Antonia, 294 – Consolação – tel. 11 3255-7182), em São Paulo. A temporada tem participação de artistas ligados à história de Morris, como a cantora Ná Ozzetti e o pianista Benjamim Taubkin (dia 2), seus vizinhos antes do início na carreira musical; o violeiro Paulo Freire e o cantor Mauricio Pereira (dia 9); Junio Barreto e Fabio Trummer – da banda Eddie – (16); e Marcos Paiva, parceiro da época da Urbanda, e Emiliano Castro, com seu violão de sete cordas (no dia 23, além da presença de instrumentistas de sopro). A direção do show é de Yara de Novaes, diretora mineira com a qual Morris tem trabalhado, compondo trilhas sonoras para espetáculos de teatro. Mais informações sobre o álbum no site oficial, onde é possível baixar gratuitamente as faixas “O primeiro dia do meu verão”, “Termômetro de suingue” e “Carrossel de camelo”.
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