Acima, a formação original do Titãs. Na sequência, capa do CD Sacos plásticos, a formação atual do grupo paulistano, capa do álbum Drês e seu autor, Nando Reis
A saga titânica hoje em dia
[ 28.ago.2009 ] Eles já foram, por muitas vezes, a melhor banda brasileira de todos os tempos da última semana, mas já tem um chão que os Titãs lutam com a própria história para mostrar que continuam ativos e, acima de tudo, produtivos. Essa luta interna e inevitável ficou ainda mais acirrada após a morte de Marcelo Fromer e a saída de Nando Reis. Agora, em pleno 2009, a banda, com mais de 25 anos de estrada, lança numa tacada só o DVD do documentário Titãs - A vida até parece uma festa (Warner, 2009) e o disco de inéditas Sacos plásticos (Arsenal Music/Universal, 2009); é interessante acompanhar a trajetória deles em imagens em movimento e compará-las com o som atual. Correndo por fora, sai também o oitavo disco-solo de Nando Reis, Drês (Universal, 2009).

O longa de Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves teve uma passagem relâmpago pelos cinemas e agora tenta se redimir no mercado de DVD. Uma explicação possível para o filme com a história de uma das banda mais populares do Brasil ter ido mal nas bilheterias é o alto (e calculado) risco de não ser didático. Não existe narração em off, por exemplo, e poucas vezes os integrantes surgem em tempos atuais para explicar o passado. Fato é que Titãs - A vida até parece uma festa é costurado a partir de um emaranhado de vídeos feitos por Branco Mello durante toda a trajetória da banda, com direito a muitas cenas internas e impagáveis aparições em programas de televisão (Chacrinha, Silvio Santos, etc.). A história vai sendo contada cronologicamente com ênfase nos sucessos de cada disco, mas também rolam desvios, como a prisão de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto em 1985, a saída (tranquila) de Antunes em 1991, a trágica morte de Fromer em 2001 e a saída (nada tranquila) de Reis em 2002. O documentário perde, e não por coincidência, o fio da meada quando chega na década de 1990 (uma montanha russa de emoções pra banda) e a falta de didatismo, ou de uma busca por outra saída, cobra seu preço em alguns momentos, mas, mesmo assim, é um divertido documento imprescindível para fãs e para quem quer entender um pouco do que fizeram e fazem os titãs paulistanos.

Bem, A vida até parece uma festa deságua em Sacos plásticos, décimo-terceiro disco da banda, que marcou encontro inédito com o produtor casca-dura Rick Bonadio, de sucessos comerciais com Mamonas Assassinas, Charlie Brown Jr. e NxZero, e uma recente produção tumultuada com outros veteranos (o Ira! em Invisível DJ, de 2007). O quinteto permanece firme e coerente em seu rock de muitos lados, e boas músicas, como “Amor por dinheiro” (Sérgio Britto e Tony Bellotto), poderiam muito bem estar em dos discos clássicos dos anos 1980, mas alguns parafusos se soltaram no caminho. Só dá pra colocar na conta do enorme sucesso dos discos Acústico MTV (Warner, 1997), Volume 2 (Warner, 1998) e Dez mais (Warner, 1999), e da música “Epitáfio” (do disco A melhor banda dos últimos tempos da última semana, de 2001), que nada mais é que uma competente balada de auto-ajuda, mas que ganhou significados após a morte de Fromer.

Somente assim para explicar a redundância das quatro baladas do disco: “Antes de você” (Paulo Miklos), “Porque eu sei que é amor” (Sérgio Britto e Paulo Miklos), “Deixa eu sangrar” (Sérgio Britto) e “Quem vai salvar você do mundo?” (Sérgio Britto), divididas irmanamente nos vocais solo, as primeiras por Miklos e as últimas por Britto. Bonadio também tem uma dose de culpa, afinal chamou o amigo americano Eric Silver para assinar arranjos de cordas óbvios que foram gravados em Nashville (e esse fato dá uma cara de puro e simples fetiche para a escolha da capital da country music). Não custa lembrar que Silver, que trabalhou com figuras como Dixie Chicks e Donna Summer, já deu uma mão de verniz em músicas do NxZero, Túlio Dek e Rouge, sempre via Bonadio. Longe das baladas e próximo do metal, a faixa “Deixa eu entrar” (Tony Bellotto, Andreas Kisser e Sérgio Britto) é outro tiro n’água.

Mas o produtor também é responsável por novas pitadas eletrônicas na música dos Titãs e todos saem muito bem nas faixas “Sacos plásticos” (Branco Mello e Paulo Miklos), “Múmias” (Paulo Miklos) e “Agora eu vou sonhar” (Sérgio Britto), esta com trechos de um discurso de Martin Luther King. Outra boa surpresa são os ares jamaicanos no ska “Quanto tempo” (Tony Bellotto), com Miklos no vocais, e no ótimo reggae “Nem mais uma palavra” (Sérgio Britto e Branco Mello), com Branco Mello descendo macio e Sérgio Britto reverenciando o mestre Augustus Pablo na escaleta [ ouvir no player abaixo ]. O espírito urgente da banda, daquelas coisas entaladas na garganta, também aparecem na trinca “A estrada” (Tony Bellotto e Sérgio Britto), “Problema” (Paulo Miklos, Arnaldo Antunes e Liminha) e “Não espere perfeição” (Branco Mello e Sérgio Britto) em um disco que mesmo distante dos áureos tempos promete melhorar com o tempo (mais ou menos o mesmo caso do subestimado Como estão vocês?, de 2003). No mais, sempre haverá divergências entre quem os acompanha desde a década de 1980 e gerações mais novas que os ouviram consolidados no mercadão.



E Nando Reis? Com uma invejável carreira-solo, tanto como intérprete quanto como compositor, o ruivo sempre foi a principal ligação da banda com o pop via MPB. Não é à toa que emplacou muitos sucessos pouco titânicos nas vozes de Marisa Monte, Skank e Cássia Eller, entre outros e outras. Drês é mais do mesmo, o que no caso de Nando Reis é bom. Refrões ganchudos, baladas competentes e nada redundantes como as recentes dos Titãs, tudo aliado a uma mensagem direta na contracapa do disco - “ouvir alto” -, cujo significado é simples: seu romantismo usual vem carregado de guitarras mais nervosas (cortesia de Carlos Pontual, também co-produtor do disco). Bons momentos surgem nas faixas “Pra você guardei o amor” (em dueto com a jovem Ana Cañas), “Livre como um deus” (com arranjos de cordas, sopros e metais do veterano Lincoln Olivetti, também presente em outras músicas), “Mil galáxias” (com participação da percussionista Lan Lan) e nas confessionais “Ainda não passou” (pra ex-mulher Adriana Lotaif), “Só pra So” (pra filha Sophia) e “Conta” (sobre a perda da mãe Cecília). Sua banda, Os Infernais, continua a mesma e, além de Pontual, é formada por Alex Veley (teclados e vocais), Felipe Cambraia (baixo) e Diogo Gameiro (bateria e vocais). Certo mesmo é que a caravana musical dos Titãs e ex-Titãs segue com vento a favor, apesar de um ou outro solavanco.
Pesquisa por data
© Copyright • Gafieiras • 2002 - 2009 • Todos os direitos reservados.
site: rosselli • v:3.0