Pop na pele. Capa do novo trabalho de Wado, abaixo fotografado por Maira Villela
Wado ainda batalha para viver de música
[ 02.set.2009 ] Mesmo com o quinto disco-solo recém-lançado - Atlântico negro (Independente, 2009) -, Wado sabe bem quais são as dificuldades de quem escolhe viver de música. Catarinense radicado em Alagoas, ele já encarou a rotina de São Paulo com a intenção de tirar seu sustento da carreira musical. Em 2001, acompanhado de Sonic Junior, embarcou para o Sudeste para tentar lançar o álbum O manifesto da arte periférica por algum selo (saiu pela Dubas, no mesmo ano).

Entre as idas e vindas na ponte São Paulo-Alagoas, Wado nunca escondeu que iria até onde o bolso aguentasse, postura que lhe rendeu nos últimos tempos a volta para o Nordeste e um emprego como diagramador em um jornal de Alagoas. “Atualmente não trabalho mais no jornal, mas fiquei quase dois anos lá. Tenho um emprego mais flexível agora, na Secretaria de Cultura de Maceió, e minha agenda não é assim tão cheia, cerca de quatro shows ao mês, então, dá pra conciliar legal”, explica o músico que há três anos reside na capital alagoana.

“Nas duas oportunidades em que estive fora do país (a primeira em 2005, em Paris, durante o evento Ano do Brasil na França; e a outra em 2006, na PopKomm, tradicional feira de música em Berlim), o público era bastante heterogêneo, acho que mais gringos que brasileiros, e a receptividade foi bastante calorosa. Fiz uns contatos por lá, mas não se concretizou ainda em uma nova volta”, contou.

Apesar dos cinco discos-solo nas costas e de iniciativas em grupo, como o Fino Coletivo, do qual participou, Wado sabe que avaliar a evolução em sua carreira é uma tarefa árdua. “Acho que estou mais melódico e maduro em alguns aspectos, mas, em compensação, devo ter perdido um pouco de espontaneidade. Estando dentro de mim fica difícil avaliar”, brinca.

Wado foi um dos contemplados da polêmica edição 2008 do Projeto Pixinguinha, da Funarte. Polêmica porque a essência que consagrou o projeto criado por Herminio Bello de Carvalho no fim da década de 1970 – promover shows pelo Brasil, a preços populares, de um artista consagrado com um novo – foi alterada radicalmente naquele ano. Wado, inclusive, desfrutou desse circuito em 2004, ao excursionar pelo Sul e Sudeste do país com Rita Ribeiro, Totonho e Carlos Malta.

Como prêmio da nova edição do Projeto Pixinguinha, Wado ganhou recursos para gravar um disco e realizar shows pelas cercanias onde reside. Assim chegou ao público Atlântico negro, disponível para download gratuito no site oficial do artista.

Produzido por Pedro Ivo Euzébio, o disco expõe em seu título a inspiração vinda dos escritos do antropólogo inglês Paul Gilroy (The black Atlantic, 1993), que aborda as relações entre África e América. Ritmicamente, essa dualidade também está presente no disco: tem sambas, afoxés, pop, funk e programações eletrônicas.

O álbum, com 11 faixas, traz 13 músicas, a maioria assinada por Wado em parceria com Mia Couto, Dinho Zampier, Alvinho Cabral e outros. Wado visita o terreiro de 1972 de Ronnie Von, ao regravar o refrão de “Cavaleiro de Arunda” e unir à autoral “Jejum”; canta “Boa tarde, povo”, composição creditada à Maria do Carmo Barbosa e já gravada pelo grupo Barbatuques sob o título “Baianá”, e ainda dá voz para “Rap Guerra do Iraque”, de MC Gil do Andaraí, que pode ser ouvida abaixo.



Os discos anteriores de Wado também estão disponíveis para download gratuito em seu site oficial.

Para fechar, confira o clipe da música “Reforma agrária do ar”, faixa do disco Terceiro mundo festivo, de 2008.

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