3 X Céu. A cantora e compositora fotografada por Marcelo Gomes, seu CD Vagarosa e seu EP Cangote
O bocejo envolvente de Céu
[ 05.set.2009 ] Finalmente, o segundo disco de Céu. Desde a estreia solo em 2005 aconteceu de tudo com a cantora e compositora; de uma filha à canção em novela, além de mais reconhecimento no exterior que em terreno pátrio (pelo menos quando assunto é show) e projetos coletivos (Sonantes). E o que aconteceu com sua música foi um mergulho mais profundo nos grooves malemolentes da Jamaica. Sem esquecer, obviamente, o samba. Assim é, em poucas palavras, Vagarosa (Urban Jungle/Universal, 2009), disco cheio de descobertas e maravilhas, mais um entre os ótimos lançamentos do ano.

Logo de prima o tom é dado na faixa-síntese do disco: a autoral “Sobre o amor e seu trabalho silencioso” é levada apenas por voz e cavaquinho e Céu sussurra baixinho que “Vai pegar feito bocejo / O que só o sentido vê”. É de tranquilidade, moleza, naturalidade e atenção nos detalhes que Céu está falando e, na sequência, surge a sensual e amorosa “Cangote” (Céu), proclamando que “Fiz minha casa no teu cangote”. Claro que ela não se entrega assim e canta suas paixões afro-brasileiras em “Comadi” (Beto Villares e Céu), cruzamento paulistano de Dorival Caymmi e Jorge Ben levado por baixo forte de reggae. Africanidade e Caymmi também sobrevoam a feminina “Bubuia” com seus vocais divididos entre as parceiras Anelis Assumpção e Thalma de Freitas (é o primeiro fruto do projeto Negresko Sis – ‘Sis’ de sisters/irmãs e “Negresko” porque Anelis e Thalma são negras e Céu branca).

Céu volta sozinha, nervosa e lisérgica em “Nascente” (Céu e Siba), mas o baixo de “Grains de beauté” (Beto Villares e Céu) a relaxa novamente pra abrir novas portas para o amor. É o samba dolente “Vira-lata” (Céu), diálogo de mulher e malandro (com a voz de Luiz Melodia), com acompanhamento de cavaquinho, percussão e sopros muito bem colocados. “Papa” (Céu) é vinheta que serve como ensinamento dessa bela e versátil antidiva com seus versos mântricos: “Don’t take yourself / Too seriously / Papa used to say / To me”. E o tempo volta a se estender, indefinidamente, na reflexiva “Ponteiro” (Céu).

Esse tempo estendido ganha nova cara, mais movimentada, em “Cordão da insônia” (Beto Villares e Céu), que trata de bons conflitos com a cidade. Céu desafia, feliz da vida: “Dorme, dorme, Babilônia / Quanto mais quietinha fica / Mais aumenta a insônia / E desperta a retina / Mais atiça a procura / Ao silêncio que inspira” (ao fundo, BNegão manda seus vocais marotos). Já a faixa seguinte, a única regravação do disco, é “Rosa menina Rosa” (Jorge Ben), ao mesmo tempo reverência ao ídolo, homenagem a filha (Rosa) e encontro dub com os amigos do Los Sebosos Postizos (projeto do Nação Zumbi com repertório de Jorge com escala e conexão na Jamaica). Os sons da ilha também estão no delicioso ragga “Sonâmbulo” (Céu, Serginho Machado, Bruno Buarque, Lucas Martins, DJ Marco e Guilherme Ribeiro), faixa que foi composta coletivamente durante os primeiros shows da turnê do disco de estreia. Pra encerrar, Céu traz “Espaçonave”, parceria com Fernando Catatau e pop rock espacial e percussivo só com passagem de ida.

Produzido a oito mãos por Beto Villares, Gustavo Lenza, Gui Amabis e Céu, Vagarosa possui uma impressionante (e alta) regularidade. Não existem barrigas, muito menos vazios. Céu preenche tudo sem tensão, pensando apenas na música como extensão natural de sua vida. Outra característica de seu trabalho, a produção coletiva, é parte importante desse seu jeito de ver e cantar o mundo. Por isso se cerca de um gangue de músicos/parceiros que vão desde Rodrigo Campos até Chiquinho (Mombojó), passando por Marcelo Jeneci, Curumin, Bruno Buarque, Pupillo, Dengue, Guizado, Lucas Martins, Pepe Cisneros e até o saudoso Gigante Brazil. Quer dizer, impossível resistir a bocejo tão sedutor.

P.S.: A lamentar apenas que a interpretação de “Visgo de jaca” (Rildo Hora e Sérgio Cabral), que saiu no início do ano no EP Cangote (lançado no exterior), não tenha sido colocada como faixa-bônus. Mas é, claro, que você escuta aqui.





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