![]() |


![]() De cima para baixo: capa do álbum Esse cavalo morto no jardim; cartaz da 10ª edição do Mó!; cartaz do conto-concerto O diabo era mais embaixo, peça para trio de contrabaixos, narrador e mais quatro instrumentos; e Manu Maltez
|
A cavalaria de Manu Maltez [ 11.out.2009 ] O homem é uma máquina. Paulistano de 32 anos que, na década de 1980, caçava sapos num terreno baldio próximo à Avenida Sumaré, em São Paulo, Manu Maltez é tudo o que a imprensa e os lojistas menos querem encontrar pela frente. Simplesmente porque é difícil rotulá-lo. Contrabaixista de formação sólida e skatista apaixonado, Maltez é compositor (de música e de letra) e um artista plástico que cada vez mais ganha os livros, os muros, as paredes e as galerias. Também é um dos organizadores – ao lado de Yvo Ursini e Fábio Barros - do Mó!, uma mostra de arte independente e contemporânea que desde 2006 pontua São Paulo.
Mas difícil é classificar a música que faz, e isso não é demérito nenhum. Muito pelo contrário. Não tem “uhu, ahá”, “aê, aê”, refrão ou uma melodia assobiável logo após a primeira audição. Cheia de camadas, a música de Maltez surgiu em disco em 2006 com o álbum As neves do Kilimanjaro, quando dividiu a instrumentação com o Cardume, grupo que fundou em 2001. Três anos depois, novo retrato, Esse cavalo morto no jardim, que chega ao público neste domingo (11), na 10ª edição do Mó, no Auditório Ibirapuera. “O melhor jeito de ouvir esse disco é sem maiores apresentações, instruções, indicações”, avisa o músico em entrevista ao Gafieiras. No Mó!, Maltez e seu Grupo Cardume dividem a maternidade com o amigo Fabio Barros, que lança Enquanto eu caminhava, e também o palco com o Projeto B e o Axial. Mas falava do cavalo morto de Maltez. Nesse segundo disco, o multi-artista assina todas as 11 músicas - da criação aos arranjos -, exceto em “Cachalote”, que dividiu a letra com o escritor e jornalista Pedro Biondi. No departamento sonoro, Esse cavalo... é um álbum acústico, com sopros, jazz, Tom Jobim, Marcelino Freire, Miró da Muribeca, vanguarda paulistana, negritude, imagens, Michael Jackson e São Paulo. Tem o Cardume com Thaís Nicodemo (piano), Amilcar Rodrigues (trompete) e Leonardo Muniz (saxofone e clarinete). E reforço de Maurício Caetano (bateria) e Yvo Ursini (guitarra), ambos do Projeto B. Já o outro departamento, o visual, está representado pelo disco em digipack, com capa, contracapa e encarte tatuados de seus desenhos. Mais seguro de suas opções estéticas que o inaugural, o contundente Esse cavalo morto no jardim também marca a estreia do selo Mó!. Infelizmente, e por enquanto, a única forma de adquirir o CD é por meio do blog do autor. Para ouvir quatro faixas, basta acessar o MySpace do Cardume. Abaixo, o áudio de “Mané Jackson”, a entrevista realizada com Manu Maltez por e-mail e um faixa-a-faixa. Gafieiras - Em que momeno da sua vida chega esse novo CD? Manu Maltez - Rapaz, acho que esse é um momento bem legal. Depois de uns bons anos lutando pra seguir desenhando e tocando como se estivesse casado com duas mulheres extremamente ciumentas, agora parece que elas me deram uns dias de descanso e resolveram me ajudar, um pouco, e até parecem amigas (...). Acho que esse disco, de certa forma, condensa uma série de encontros que tive nesses anos com música, artes plásticas e também com a literatura. O que diferencia esse disco do anterior? Que elementos ou conceitos do primeiro álbum você intensificou e quais você abrandou? Por que? O primeiro é um disco mais reflexivo, pra ouvir sentado no alto do Monte Kilimanjaro. Já esse, não. Esse é pra ouvir andando de skate, ou a galope no meio da cidade. Em chamas. Tem também a entrada do baterista Maurício Caetano e do guitarrista Yvo Ursini, que produziu o disco junto comigo. Além dos que já estavam (Thais, Léo e Amilcar), que também contribuíram muito na vivacidade das interpretações. Está todo mundo mais maduro. (No fundo, acho que está diferente do outro simplesmente porque vivi; vivemos. Confesso.) A melodia vem antes e define a letra ou o tema da canção? Ou tudo funciona ao contrário? Não tenho um modo de fazer (música) pré-determinado. Até porque não acho que sejam canções... Às vezes, nascem de um mote poético, outras de um som no piano, uma levada no baixo, outras até de uma série de desenhos. Vão ganhando formas e significados que me surpreendem e que somente se completam com o arranjo e a interpretação, que são partes tão importantes quanto letra e melodia, e, mesmo assim, acho que as coisas ainda ficam em aberto, entende? É meio caótico mesmo! Elas tem também algo de opereta, de pensar no grupo como uma orquestrinha, com sonoplastia poética, uma rádio novela, enfim. No final das contas, não diria que são canções, mas revelações (ao menos pra mim). Pelo menos em dois momentos a cidade de São Paulo está explicíta no disco. Como você define sua relação com a capital e como ela influencia sua música? Sabe que na década de 1980 eu caçava sapos naquele terrenão baldio que existe à beira da Avenida Sumaré? Qual é o desafio e o barato de se fazer música nos anos 2000? O desafio é conseguir que te escutem. E o barato é a liberdade total que você tem pra fazer música; a facilidade pra produzir um disco com autonomia artística. O Mó! chega à 10ª edição. Quais suas principais vitórias e o que esta edição tem de especial? Acho que o principal do Mó! é que ele nos fez crescer muito como artistas e, principalmente, como pessoas. Conhecer e trocar ideias com os vários músicos que participaram ao longo dessas edições, as parcerias musicais que o Mó! gerou e está gerando, os pepinos que tivemos de resolver, enfim, tudo isso fortalece o espírito. Esta edição é muito importante pra gente, pois marca o lançamento do selo do Mó! (na verdade, é algo como um carimbo) que caracteriza o modo como foram feitos os dois discos que serão lançados nessa edição, (o meu cavalo e Enquanto eu caminhava, do Fabio Barros). Foram discos feitos coletivamente, na camaradagem; a maior parte nos estúdios caseiros de integrantes do Mó!, com participações dos músicos, tanto tocando, como ouvindo, comentando e mixando esses materiais. E, afinal de contas, chegamos ao Auditório Ibirapuera! Estamos comemorando muito, pois dessa vez não teremos que nos preocupar com o número de tomadas e com o tipo de benjamim que teremos de levar pra poder fazer mais um Mó! na cidade. ESSE CAVALO MORTO NO JARDIM Faixa-a-faixa por Manu Maltez 1. “Urubus são anjos” Essa foi feita a partir de uma exposição que fiz em 2008 chamada Anjos e urubus que reunia uma série de gravuras com esse tema. Procurei levar pra música o clima, a densidade, as texturas e as sobreposições de linhas que eu tinha conseguido nas imagens. O improviso do trompete e o diálogo entre os músicos reflete bem o que eu disse sobre a maturidade do grupo. Achei legal começar com ela, pois dá um alerta geral do que virá pela frente se a pessoa quiser realmente seguir ouvindo o resto do disco... Cheguei a esse nome depois de uma noite na Casa de Francisca, onde toquei a música pela primeira vez, e na saída escutei um cara conversando com uma amiga ciumenta que estava chamando ele e outros amigos de urubus, pois estavam todos em cima de uma mesma mulher (não por acaso a mais graciosa da noite). Ele simplesmente respondeu pra amiga, sorrindo, "Urubus são anjos...", citando justamente o refrão da música. Aí não teve jeito. 2. “Cachalote” Fiz a letra em parceria com o escritor Pedro Biondi, lá de Brasília. Também funciona como um abre-alas do disco, um canto de guerra, com o tema-mote passando por todos os instrumentos até o final em que ele se reduz a um estilhaço rítmico dele mesmo retornando à voz. 3. “Mané Jackson” Esse era meu apelido quando moleque, por refazer assim tão empolgadamente os passos do Michael (Jackson). A música é toda baseada em “Billie Jean” e conta a história trágica do cara. Mas, o mais trágico disso tudo é que fiz essa música há uns cinco anos, e somente agora resolvi gravá-la. Um mês depois ele se vai e... A gravação ficou muito legal também pela livre improvisação no meio da música; parece que baixou um Michael em cada um dos músicos. 4. “Range” Essa fiz a partir de um poema que eu tinha escrito faz um tempo. Mas quando fiz a música, o poema também mudou bastante. Justificou a entrada em definitivo do Yvo Ursini (guitarrista e produtor) no Cardume. Escrevi o fraseado instrumental do refrão pensando especialmente na guitarra, e as interferências que ele criou no final ficaram bem fortes. 5/6. “Rasif” Essa remete diretamente ao livro escrito pelo mano Marcelino Freire (Rasif - Mar que arrebenta) e ilustrado por mim. Pensei em Rasif como um personagem profético andando pelas ruas de uma cidade alada anunciando o fim do mundo imundo. Aí, quando estive em Recife em 2008 pra lançar o livro, conheci o poeta Miró da Muribeca. É um cara sensacional que tem seus versos conhecidos pela cidade toda por sair andando pelas ruas com seus livros e poemas. Quando esses poemas são entoados pelo próprio Miró, ganham uma força ainda maior. Aí, pensei, "Porra, esse é o próprio Rasif!" (e, não por acaso, o Marcelino já tinha escolhido um poema do Miró para abrir o livro. O poema diz: "Urubu come carniça e voa"). Nos tornamos amigos. Quando ele esteve em São Paulo, fomos para o estúdio pra ele gravar em cima da música que já estava pronta. Fiquei boquiaberto com a musicalidade do Miró, que já foi soltando seu fraseado com a maior naturalidade sobre uma base de compassos irregulares. 7. “Celacanto (Latimeria Chaluminae)” Uma instrumental. Ela é meio nostágica, até por isso o título (Celacanto é o nome de um peixe marinho das profundezas, uma espécie de fóssil-vivo; acreditava-se que ele estivesse extinto, mas, vez ou outra, quando menos se espera, um raro exemplar desse peixe da época dos dinossauros é encontrado na superfície da costa africana nadando moribundo). Ela também funciona como um divisor de águas lado A e lado B do disco. Um descanso para os ouvidos. 8. “Fósforos” Outro poema musicado que foi se transformando graças à música. É uma espécie de "samba-canção" existencial, que remete a Nelson Cavaquinho, Tom Jobim, Itamar Assumpção e acaba em "free jazz". Depois de uma frase inconclusiva ("Hoje nem me visto / amanhã..."), os sopros do Léo e do Amilcar complementam improvisando conjuntamente, serpenteando, dizendo o que palavra nenhuma pode dizer. 9. “As papelarias do Itaim” Essa foi escrita pra me vingar de um passado. Estudei durante muito tempo no Itaim (bairro classe média alta de São Paulo). E já naquela época não gostava muito do bairro, hoje em dia então... 10. “Turvo” Feita a partir de um sonho recorrente e de um fim de caso. O sonho é que, de uma forma ou de outra, sempre acabo caindo no rio Tietê... Já sobre o caso não devo dizer. Vale ressaltar a participação do Fabio Barros (compositor e um dos integrantes do Mó!), dividindo as vozes comigo. Fabio que era um legítimo curva de rio (e por isso o chamei pra cantar), e que agora se regenerou. 11. “Esse cavalo morto no jardim” Música que acabou virando o nome do disco (devo isso ao Marcelino Freire, cabra que nasceu pra dar nome às coisas). Também é uma homenagem ao Tom Jobim, que fez um disco grandioso chamado Urubu, e que definia o bicho como "Fechadura do céu". A partir daí, fui pra "Rachadura em céu azul". Também é uma música com um ostinato (ideia musical que é repetida insistentemente) bem característico, áspero, carcarejante. O refrão é soturno, mas pra mim é cheio de luz. Tem uma amiga (a ilustradora Valentina Fraiz) que se diz imaginando sua filha de três anos cantando isso na escolinha (Jesus!...). Notícias relacionadas. :: Mó! apresenta a música contemporânea de SP :: MIS/SP recebe a 3ª edição do Mó! Leia também
Pesquisa por data
|
|
© Copyright • Gafieiras • 2002 - 2009 • Todos os direitos reservados. |
site: rosselli • v:3.0 | ![]() |